terça-feira, 8 de novembro de 2011

Eletroconvulsoterapia.

Li o nome em algum lugar…

E quase instantaneamente já me encontrava na maca imobilizado. Atados meus braços e pernas. Minha cabeça fixada em um cabresto sólido. A boca silenciada pelo estofamento de uma matéria fibrosa. Sentia frio, enclausurado entre as paredes brancas do quarto. Os olhos se moviam de maneira irregular para todos os lados. Meus ouvidos me delatavam o absoluto silêncio interrompido apenas pelo pulsar frenético no meu peito. E eles entraram. Duas figuras assépticas movendo-se aos passos, carregando partes trincolejantes de um aparelho. Cada qual em cada lado meu eles conectaram uns aos outros os instrumentos. Fios, bastões, lâminas metálicas associaram uma potente bateria ao meu cérebro. Me debati impotente ao sentir o liso frio dos polos cada qual em cada lado da minha cabeça, nas minhas têmporas…

E ri chorei do meu acesso de insanidade desespero. Sozinho ao encarar a palavra todo eu me submeti ao tratamento terrível. E entre soluços e engasgos senti qualquer espécie de alívio. A eletroconvulsoterapia já havia funcionado

O pó.

Quando se dilui o que é que sobra? Todos os teus sais e dores especialmente concentrados nesse espaço que lhe constitui. Quando se dilui, em tantos goles, e bebe desenfreadamente os copos, um por um, inteiros, repetidos, tantos, quando se dilui o que lhe sobra? Quando se afoga para se esquecer. Bebe o dilúvio inteiro para continuar a ser. Manter pulsando veias todas tão contraídas. Cai como uma gota de sangue no oceano. Bebe como um anfíbio beberia se achasse o oásis no deserto. Aumenta-se o volume, arfa o peito. Realoca costelas, dilata o estômago. O esôfago expande-se em um poço profundo. A língua comemora, cambalhotas peristálticas. Arregala olhos, umidifica narinas. É quase novo, está hidratado. Quando se dilui, desse modo como bebe a água, questão de tempo até a atmosfera tragar-lhe inteiro o líquido, sua solução, e você evapora, e daí os calores, e daí a secura, e daí desconsolo, e dor, e sede. Quando se dilui em tantos goles, copos, água, adia o dia em que um dia você inteiro secará. Invariavelmente secará. Nada sobra. Tudo seca.

Deus não criou a arte.

Deus não criou a arte, o homem criou. A arte não existia no paraíso, lugar da plenitude da ligação entre o homem e Deus. Através de Deus homem busca a plenitude de sua vida, completude e justificativa para sua humanidade. Por Deus, Para Deus, Em Deus pode ser homem. E o paraíso era o lugar, sob a ótica da fé cristã, onde as potencialidades humanas encontravam-se plenas e acalmadas.

Deus não criou a arte, o homem criou. Ou será a mulher? De quem é a grande culpa da expulsão? A mulher que induziu ou o homem que mordeu? Se o paraíso, pleno, e a ligação com Deus fossem realmente tão bons assim, por que teria Adão, silenciosamente insatisfeito, mordido a fatídica maçã? Por que teria Eva o convencido? Tratamos de Deus afinal, e Deus é Deus, todo-poderoso Deus, onipresente, onipotente, onisciente, oni-Deus. E mesmo partindo do pressuposto de que o homem é que é falho, malfeito- mesmo que por Deus todo-poderoso- no paraíso, no Doce Lar criado por Ele, por que ainda lá o homem se encontrava insatisfeito? Por que contrariou o todo-poderoso?

E meu pensamento é, Deus não criou a arte, o homem criou. Essa maneira de ligar-se às suas potencialidades humanas, expulso do paraíso que já o fora homem faz arte para trazer para si e de si parte do significado que lhe falta. E o paraíso se manifesta, e lhe vem de dentro, lhe sai mundo afora, do homem, digo, e lhe conecta profundamente aos homens, à vida.

Uma ideia engasgada.

Uma ideia, como todas as ideias, impedindo o veio dos pensamentos, o fluir das sinapses. Uma ideia empedrada, coagulada, a sinto no cérebro, ocupando um espaço físico da minha massa cinzenta, central, e cada palavra que esse texto articula resvala pelas extremidades desse tumor, sem nunca nunca atingi-lo, sem desarticulá-lo. Uma ideia, com a cara preta de todas as ideias, o vazio negro e a explosão de raios, informação, imagens mentais, penso em um gato, como em uma câmara escura surge a fuça do gato, bigodes, nariz faíscam menos que seus olhos, que muito faíscam, o gato some, e a ideia continua lá, estática, sem faiscar nada, sem explodir-se em informação, gosto, fala, ato, mais pura escuridão. Comecei o texto na esperança de quebrá-la ao meio, fazer surgir de dentro da cápsula um raio de esperança, mas me veio a angústia, será esse bloco a imagem mental da angústia? Como uma nuvem chumbo flutuando no nada, pense em uma nebulosa, quero explodi-la em supernova, fazer-se espalhar o fogo do pensamento fluido, mas nada. Cada palavra pressupõe um esforço mental especial da área adjacente ao bloco, articulam-se as palavras como se a carga elétrica dos neurônios girassem em sua órbita. Por exemplo, reli o texto até essa parte antes de lembrar a palavra “órbita”, pensei na Lua, em satélites, rotação, translação, todos os conceitos me vieram, mas órbita, que eu mais queria, a necessária, fugiu-me, fogem-me todas. E a próxima frase, que suplício! Frase quase saiu como “linha”, mas o que é uma linha diante de uma frase, imaginem: “E a próxima linha, que suplício!”. E vocês teriam perdido, se é que em algum momento deram, o crédito(detestei essa frase)… mas enfim… vocês acreditariam menos no meu esforço em quebrar a ideia engasgada, sobre a qual comecei o texto falando sobre, e que ainda me impede de escrever qualquer coisa, inclusive sobre ela, qual será o nome dela? Angústia? Hoje eu perco para ela.

P.s.: Não consegui explorar nem a imagem da ideia engasgada que é a primeira que me veio. Como se engole uma ideia?

Ileso.

Recebo como chumbo no peito. E a dor lancinante. E o prazer inesgotável. Não sou como você, nunca sairia ileso. E perco meus cabelos. Minhas unhas inexistem. E ainda me lanço às lanças, na minha mão as pedras, e quem há de gritar na revolução e quem há de lhe cortar a cabeça de sua apatia serei eu. Não posso sair ileso. Não sou você.

Não viro a página e recomeço, recomeços são ilusórios. Sim, reinvento, transformo, revoluciono, adapto, nasço e morro, é minha tarefa diária. Mas nunca recomeço. Nunca poderia. Esquivar-me de tudo o que foi, e não foi, e nunca seria. E me parte o coração todos os dias os dias. Mas sou eu, não sou você, é meu compromisso com a minha vida, minha memória, e com a sua própria, sua falta. De vida. E de memória.

E me contenho à vontade de enfiar-lhe uma faca no ventre em frente plateia aflita. Fatalmente é que se descobriria se a sua carcaça conformada sente algo. Você estrebucharia? Sangraria à morte? Viveria a dor? E talvez nesses segundos precedentes do desfecho cruel você sentisse algo, vivo, e pela primeira vez não saíra ileso. Eu lhe feri a casca, feri-lhe o todo.

Vive como que anestesiado de qualquer consciência. Seu arquétipo de Meursault, seu tolo! Não pensa por não poder pensar-se. Não pensa, e vive, de crime em crime, em tragédias. Não se reflete, vazio, não há nada para ver. E o que é que você tanto encara nos espelhos casuais? A forma? Que forma? De que? Quando se encara no espelho o que é que você vê? E se lhe agrada a vista? Lhe é conforme a paisagem de você?

É. Sei que é. Parte do mundo como ele existe fora construído para agradar garotos como você. Lhe é casa para as vontades. Despeje seus botas sujas na mesa de centro. Acomode-se. Sorria até o último músculo do sorriso lhe for possível. Extraia o que lhe é vital em todos, qualquer um, entregue suas próprias moedas pessoais, e o sexo, e a juventude, e a beleza, e parta. Que de galho em galho é sua vida. E esse é seu mundo, sua parcela.

O meu sei melhor nesse fogo incessante que me queima a pele, de dentro pra fora, queima tudo. Sei melhor no limbo, no gueto, na revolta contra o absurdo, a criação de sentido, o sentido, pois o homem é o macaco que produz sentidos. E vivo pelo sentido, quebrá-los, instaurá-los, é minha tarefa diária. Mas tudo porque não sou você. Eu sou outra coisa. E eu não saio ileso.

O cheiro.

Inteiro baunilha, açúcar

Cheiro da flor, a flor

Fina e bruta, a flor

Sutil e linda, e lindo.

.

Inteiro canela, cravo

Cravo lindo, cravado

em minha retina, flor

do seu perfil ao meu lado.

.

Inteiro doce, o prazer

Sentir-te exalando você

Pontual que é, e raro

Você se sendo ao meu lado,

.

o cheiro

Uma casa na solidão.

Construí-me uma casa na solidão. Paredes sólidas de silêncio reflexivo. Uma entrada pouco convidativa. Uma casa de aspecto taciturno. Mas um refúgio para a noite da alma. Um abrigo para a vida ferida.

Construí-me uma casa na solidão. Longe dos castelos dos sonhos, longe das torres de ilusão, construí-me uma casa na solidão. Com paredes sólidas que comportam o silêncio reflexivo. Com uma lareira humilde e aconchegante para as ideias. Uma morada pequena, para agora que me encontro pequeno. Mas um lar seguro, agora que toda a segurança me falta.

Construí-me uma casa na solidão. Uma morada que comporta poucos, poucos de cada vez, hóspedes educados. Para quando quiserem também um conforto, ou reconforto, recobrar energias, pouso para o cansado, o abatido, o que todos os dias faz viagem tão longa quanto a minha através das horas.

Construí-me em casa para me poupar, me reconstituir, me recuperar, colar-me os pedaços. Uma casa pouco atraente à vista, mas com bom calor, o possível, interno. Construí-me a mim mesmo em uma pequena casa na solidão, e o silêncio, a reflexão, ajudam-me a enfrentar-me a mim mesmo. Luto internamente contra os pensamentos indizíveis, busco conforto no meu eu estranho, que hoje tanto me estranho, tanto não sei quem sou.

Construí para mim mesmo uma casa na solidão. Com paredes sólidas de silêncio reflexivo. Uma porta pouco convidativa para não chamar atenção. Poucos cômodos, um mínimo de hóspedes por vez. Uma casa contra a tempestade que se despeja sobre a vida a acontecer. Para mim mesmo, para poucos, um lugar por ora ser.

Enquanto fumava.

Reparei o farfalhar das folhas de uma árvore.

O tons de verde, cima, baixo, das folhas

se contorcendo em uma amálgama vital

Como se pegassem um fogo invisível.

.

Eu exalava a fumaça, ela rodopiava.

O mesmo vento que soprava as folhas

Era o mesmo que tratava de dissipar a fumaça.

Essa não tinha a mesma sorte das folhas

Ambas se retorciam, mas só as folhas mantinham-se intactas.

.

Enquanto exalava o último suspiro do meu cigarro

Joguei-lhe a bituca no chão e pisei em cima.

Um rato passou na base da árvore

Correndo rumo a algum bueiro.

.

O vento cessou. A contemplação acabou. Voltei-me à vida.

Perfeita.

Queria eu por minhas mãos em sua forma plena,

sua cintura delineada à pena,

Ter o poder de elevar-te até compreender-te serena

Perfeita, como és, e pequena.


Queria decifrar todas as vozes que lhe gritam,

Saber o poder que suscita

Matar a ideia que lhe assusta: o homem mito.

Perfeita, como és, em vida.


Queria lançar-te por todos os caminhos,

E se assim o ousasse, o erro.

Não me cabem todas as suas dores

Mesmo que delas saiba no meu peito.


Mesmo que você não saiba

Nos dividimos em sujeito

E você existe tanto em mim

Que eu também morro

Em todas as guerras

Nas quais morres calada.


E eu também sofro

Nos todos os dias

Em que não vives plena

E eu também estou preso

às suas noites de masmorra

aos nós todos na garganta

Que lhe impedem de ser

Perfeita.

O casamento.

Ela era tímida, sonolentamente amorosa, de um aspecto frágil, mesmo que de essência inquebrantável. Sonhadora em dias frios, quase vívida em dias quentes. Poder-se-ia chamá-la até de sopro de ar fresco: sua energia vital era como uma brisa suave. Suas ideias eram adequadas ao modo da maioria das moças da sua idade, ainda que, na sua idade, muitas moças já desabrochassem mulheres feitas. Colecionava adesivos em seu caderno. Gostava de filhotes de gatos, temia animais adultos. Supunha gostar de emoções fortes, depois de um único passeio em uma montanha russa. Gostava de pipoca doce e paçoca. Gostava de Jane Austen, viver, Jesus Cristo, e gostava dele:

Ele era de uma doçura confusa, existia charmoso, mesmo que tortamente. Lindo como alguém que constantemente perde o chão sob os pés e necessita apoio. Lindo como uma verdade sem provas, sem estudo: a fé. Gostava de livros, tê-los, cheirá-los, lê-los. Gostava de banhos, lavar tudo de si. Gostava de matinais: pães, café, manteiga. Gostava de si mesmo, contemplar-se, odiar-se, apreender-se nos espelhos. Gostava de ficção, a vida em começo, em meio, amava o fim. Gostava de jazz, e política, e, sim, gostava dela.

Foi em um dia de primavera, o vento soprava suave, o sol irradiava um calor contido: não. Era ela que se irradiava em luz e calor próprios. Ela lhe atravessara o caminho, o brilho prateado de seu sorriso resplandeceu. No instantâneo dos seres: o amor. E como uma casa na tempestade, ele a adentrou, buscando a paz, a temperança.

Ele lhe sorriu, ela não desconfiava. Tímida que era não poderia supor. Ele, em todo seu garbo, seu charme, longilíneo, por ela?! Tão comum, tão simples, e até vulgar, ela se julgava. Mas ele lhe sorria, como se lhe mostrasse um caminho, era definitivo, ela constatava: ele realmente a cortejava. Eram dela os versos mudos que o corpo dele agora emanava. Para ela que ele olhava, como quem via um prêmio, uma vida inteira querendo ser escrita. Ela se achava bela. Ele a encontrara.

O instantâneo dos seres: o amor.

E não tardou: o amor.

Logo se construiu: em amor.

Foram belos dias, mesmo que não todos, mesmo que não durante o dia todo, mesmo que nunca. Era sólido o amor, mesmo que preenchido por lacunas de silêncio, mesmo quando desmistificados e revertidos todos os encantos, mesmo que quebrado.

Ela era inteira ao lado dele, preenchida como um vaso de porcelana. Ele era inteiro, ao lado dela, ele pensava, pois ao lado dela, ele era tudo que gostaria de ser.

E um dia, ela adentrou a Igreja, em seu vestido merecidamente branco, linda como nunca houvera, linda, como neve nos trópicos, linda, como uma heroína que ruma à forca pela fé em seus ideais.

Ele a contemplou do altar, e como nunca, estava inteiro: cilíndrico, belo, engomado em terno habilmente puído, limpo, cheiroso, acima, então, de todos os outros, via-se por fora, contemplava sua vida como num quadro, estava feliz, satisfeito.

Ele lhe tirou o véu, ela eternizou-se em sua mente. Ele contemplava o paraíso, ela lhe contemplava.

A cerimônia correu, alguém haveria de manifestar algo contra tão bela união?

E eu gritei, mesmo que mudo, e minhas palavras explodiram no papel. Esperneei, inerte, em meu movimento de narrador, em minha história como aqui a conto, reconto, dou ao mundo. Sozinho, cá estou, e não combateria nunca sozinho uma vida que pede para ser escrita. Como haveria de impedir tal felicidade de acontecer-lhes, minhas personagens?! Quem sou eu para poupar-lhes a felicidade que tanto almejam ambos? e aqui vos permito…

Foram felizes para sempre.

O Medo.

Eu sou você, não o sou? Cada dia que passa te entendo mais, meu monstro, eu mesmo, todos os dias você parece verter pelas minhas rachaduras. Conforme eu te destruí, te virei, virei você. Conforme estudei seu conceito, tão amplamente, tão arduamente, pra te desmascarar, e te desmascarei, é em mim que a máscara, nesse triste revés, foi lançada.

Todo dia é o seu desespero que eu ouço na minha risada. Seu nariz adunco parece emergir na minha face. Sua pelo imundo, de lobo ferido, parece nascer na minha cara. Sinto que todo o animalesco, o brutal, o sórdido, começa a estampar-me. É em mim que sua maldição foi lançada, não o foi?

Eu sinto sua tristeza no escuro, nas horas de frio em pleno verão, quando quatro paredes permanentemente separam o mundo. É sozinho que você lá estava, não era? É de lá que violentamente você me feriu, não foi? E eu te entendo, hoje, ah! Como te entendo. Hoje que não há nada mais que o escuro.

Eu sou você. Hoje eu sei. É seu gosto que eu sinto na minha boca: o desgosto. É seu discurso que permeia a minha fala. É a dor, derradeira, o aperto forte no peito, sem explicação, mas com um único sujeito. É irremediável o que você sentia, não era? Como veneno que já se alastrou pelo corpo, como incêndio indomável.

Ah, como te entendo, eu-mesmo, eu-monstro. E a culpa que quer se fazer recair em algo outro. Uma desculpa, um sentido, o que lá se iniciou e aqui termina. Mas você nunca achou, não foi? O estopim, o início. A outra ponta da corda, pra unir metades e talvez achar uma resposta, para esse tudo que acontece, como se acontece, aos meninos como nós.

E por que não me disse, quando lá já o sabia? Que não há remédio, é como é, e já estamos sentenciados. Não há lutar contra. Resistir. Só há resignar-se, resignarmo-nos. Por que não me disse, quando lá já o sabia? Que a miséria passa a ser o prato do dia, todos os dias.

Nas minhas mãos as suas garras. Minha mordida recebe suas presas. E não há recuo diante do perigo que em nós certeiro. Não há antídoto. Eu vejo. Vejo e sinto hoje todos os açoites que você sentiu. E nos cantos obscuros que você se refugiava hoje sou eu que me refugio. E tolices como felicidade, plenitude, harmonia, te entendo, são os primeiros conceitos a desaparecer dessa visão pálida.

Chove constantemente na sua cabeça, eu já me sinto nublar. É chuva salobra, lambendo com máximo de zelo as feridas. Sinto meus os seus nervos. Sinto doer em mim suas juntas. Eu me retorço como lá você se retorcia, e sei, hoje, repito, hoje sei: não há ajuda. Ajuda para a boca borbulhando a raiva. Ajuda para essa sarna alastrada que nos faz querer tirar a pele com os próprios dentes.

E me retiro para o seu exílio. Eu me puno à sua pena. Me conformo com o rosnar solitário, e talvez, em alguma trincheira te encontro, meu monstro, o outro, o anterior a mim, a sentir todas as dores profundas, a sofrer todos os medos indizíveis, a vagar no mais inóspito vazio, a perder todos os traços de homem, e tornar-se lobo, execrado por cordeiros cruéis.

No diário de dona Maria Eliza

Dia 1

Com você foram-se algumas palavras, a razão para usá-las. Enterraram contigo certa parte dessa língua, que por nós era tão apreciada. Há em meu pensamento termos proibidos, e dado meu avanço nos anos, posso culpá-los por essas pequenas faltas, mesmo certeira sendo a consciência de que não me falta a memória, perdê-la um pouco talvez até me aliviasse, o que se expirou em mim é a habilidade de sentir certas coisas. Coisas que só os corações pueris são capazes. Os que não viveram a vida inteira, não têm-se escritos, rabiscados, e rasurados pela tinta dos anos. Habilidades humanas tão grandes que buscam no seio do existir sua manifestação, que se inscrevem e permeiam todo o ser, seus atos. Não sobra em meu espírito, depois de sua partida, espaço suficiente para ser ou sentir algo tão brusco, e esse borrão, seu, último, é o que, nesse momento grisalho, me define.

Na juventude, se cá você estivesse, recordaria comigo, éramos aptos e vivazes por todos os sentimentos, você, do seu modo excêntrico e robusto, eu, apaixonada, mesmo que em minha habitual timidez e fragilidade. A vida toda era porvir, os segundos eram ligeiros e intermináveis, dotados da magia do presente, a vida em seu frágil eterno. Hoje vejo os jovens, nossos netos, sofrendo as primeiras dores afetivas, arcando com as primeiras decepções e inconsequências, tudo sei, tudo vejo de longe, me chegam filtrados em conversas informais com nossos filhos, não me aprofundo, sei que muito me escapa, e aqui posso ser sincera, pouco é que me interessa. Não por não me preocupar com os meus netos, mas pela certeza de que ficarão bem, você a tinha, você sempre teve a certeza, não era, de que mais cedo ou mais tarde, estaríamos bem?

Lembro-me do seu ânimo pelas manhãs, sempre que eu acordava com enxaqueca, você tentaria me agradar trazendo-me o café na cama, e o café sendo proibido, você traria suco de laranja. Até as enxaquecas, irremediáveis que eram, tornavam-se suportáveis, de uma maneira que então, eu, jovem, nunca poderia compreender plenamente. As dores de cabeça nunca poderiam me fazer esquecer sua ternura, mesmo que então eu gozasse dela tão silenciosamente, ocultada em meu sofrimento. Com os anos diminuíram-se as enxaquecas, os hábitos estritamente controlados fizeram por melhorar meu estado de espírito. Foram-se as dores, você também se foi. Quem diria? Eu com minha saúde frágil terminaria por escrever em meu diário a vida e como ela segue, sem você aqui, no curso desses dias. Os dias excedentes. Os dias que escapam à necessidade do sentido, e vive-se, quase sem viver, quase que por inércia. Os dias excedentes.

No diário de dona Maria Eliza

Dia 2

Minha indisposição era mais aparente essa manhã. Acordei com certa vontade de não dissimular o que sentia. Pelo menos até o momento em que viessem reclamar minha presença, então, eu haveria de me mover para não alarmar ninguém. Mas, ainda nas primeiras horas da manhã, me permiti à cama, e lá restei, encolhida, vagando sonâmbula, em alguma matéria anterior ao pensamento. Algo entre o sono e o desperto, sonhos vazios que se mesclam à realidade entorno. Pairando na penumbra do meu quarto, e a rareada luz que vencia o obstáculo das cortinas- vestígio de um dia inteiro que se repetia lá fora- era essa a única fonte que iluminava minhas ideias.

Foi só por volta do meio dia que Roberta, a nova empregada, veio verificar se tudo corria bem, se eu continuava viva, apesar de velha. Eu a disse para se acalmar, que eu estava bem, só havia me demorado até tarde escrevendo o novo diário, e ainda tinha sono. Ela se convenceu, eu me aliviei. De certa forma, é bom ter uma empregada jovem, que desconhece o funcionamento dos velhos. Mal sabe que todas as noites durmo pouco, sempre tarde, e cedo é que acordo, quer queira, quer não.

Mas não menti, não de todo. Ontem me delonguei na minha escrita, mais escolhendo palavras, buscando o que escrever, refletindo, que propriamente escrevendo. O que se há de escrever é curto, é pouco, e a depuração do que em mim ainda é pertinente, o que faz sentido, o reconhecimento pessoal, humano, essa me é a tarefa mais longa. Lembro-me dos nossos dias, quando eram nossos, todos, e as minimidades cotidianas davam fruto às páginas e mais páginas nesse meu habitual confessionário. Eu vivia duas vezes, você dizia. Vivia enquanto ao seu lado, e vivia nas letras, nas palavras do meu diário.

Assim que a moça saiu do quarto, fatalmente, eu já me encontrava desperta, e, se posso afirmar-me como tal, alerta. Decidi não continuar prostrada ao colchão, e, finalmente, dar algum rumo ao fluxo das horas. Não me agradaria preocupar nossos filhos, não gostaria de levantar alardes maiores da minha condição. Apoiei-me, os dois pés no chão, acendi as luzes do quarto. Me dirigi ao guarda-roupas, para despir a camisola, enfiar-me em alguma saia antiquada, combinada a alguma camisa que me identifique velhota. Em que altura passamos a consumir os artigos de idosos? Não poderia dizer o momento em que me tornei a figura de minha vó. Será que, justamente, por sua figura em minha infância ter sido tão presente, será essa a grande influência na estética da minha própria velhice? Meus vestidos todos me anunciam decrépita, florais morbidamente suaves, tons pastéis monótonos como um corpo frio, a peça mais nova, um tailleur preto que me enfiaram na ocasião do seu enterro. Tudo parecia delatar-me. Nada, por ora, me agradava servir.

Contemplando minhas roupas, havia perdido tempo. O almoço, logo estaria pronto, minha falta, caso não comparecesse à mesa dentro de alguns minutos, seria notória. Antônio houvera se oferecido para almoçar comigo, mesmo tendo eu deixado claro que não havia necessidade, que Roberta sempre me fazia companhia às refeições, e que, deslocar-se pela cidade em sua breve hora de almoço, só para me acompanhar, era tanto gentil quanto dispendioso. Mas você sabe como é Antônio, desde pequeno, decidido, irrefreável. É o filho que mais me visita, e, também, de uma maneira que intimamente desaprovo, o que lembra aos outros de me visitarem.

Eu já estava quase irreparavelmente atrasada. Ainda não havia me decidido pelas peças do dia, quando o vi, no canto, obscuro, no extremo da seção do guarda-roupas, envolto em uma capa transparente, muito mais nova do que ele mesmo, a memória do que um dia fora reluzidamente branco, e, nessa ocasião, aparentava-se severamente amarelado no tempo: meu vestido de noiva.

Lembranças vorazes me invadiram. Registros difusos distribuíram em minha massa uma onda de instabilidade. Ecos confusos, dissonância. Meus joelhos ameaçaram ceder, meu corpo vacilou. Me apoiei nas portas do guarda-roupas, percebendo que haveria de me vestir sem mais. Escolhi um conjunto lilás qualquer, rumei para o banho.

Durante o almoço, fui mãe, e para o resto do dia, patroa.

Romance do Vício.

Você foi feito para ser amado em silêncio, não o foi? Amado em suspiros sutis, em delírio? Nasceu para o recesso e o íntimo, e trava com cada homem que lhe oferece seus lábios um ato eterno de confiança, de prazer, de vício?

Nasceu para estar entre os dedos, para ser manipulado, manuseado, queimar com nobreza. Quando me invade, entra-se, sai-se, deixando em mim o rastro de toda imprudência, oh criança perversa, Ai de mim! quando há de ti em mim. Ai de mim! na sua falta!

Nasceu para aquecer pensamentos, concentra o homem em sua própria clareza. Defuma-me, faz-me fuligem, me queima, como a ti é que te queimo inteiro, e te amo. Te destruo, me destrói inteiro, também, em pontuais, repetidas vezes.

Cá vivo, seu escravo, seu dono. Sua força, minha escolha, não o abandono, não me abandones, não me abandona jamais! Contrários, em nossa guerra própria, defenda comigo o direito de nos trucidarmo-nos. Defenda comigo o meu direito do mal. Do mal, que é meu, e seu, e que diariamente o escolho, me escolha: a liberdade.

Escritor.

Encarando o papel em branco: o espelho. Exigindo que refletisse a mais pura representação de seu espírito: o belo. Olhava o papel em branco, para toda a vida não escrita, e desejava, interior e secretamente, escrevendo ficção escrever-se com ela.

Sua primeira palavra… “Ele”, e pensou “não, mas que óbvio”. Rabiscou. Pensou então sobre os paradigmas, e como não importavam. Quebrá-los, perpetuá-los, nesse estágio da escrita ocidental, não importava. E reescreveu “Ele”.

A palavra lhe penetrou o pensamento. Um suspiro do perceber-se vivo, escrevendo: escritor. Fechou os olhos, recostou a cabeça: refletiu. O vazio que só o escuro do fechar-olhos proporciona aos seres, foi atingido em cheio, abriu os olhos com medo, fitou o teto, branco como o papel.

Pensou em Camus, em Mersault, em suor escorrendo pelo rosto, em pólvora, em sol e calor, e voltou-se a si, querendo refletir seu próprio Camus no papel. Querendo transmitir a quem o lesse as sensações que experimentava quando lia Camus. Desejava, secretamente, ser escrito ao escrever. Ser tão interessante e charmoso quanto. Riscou. Escreveu: Eu.

E agora se achava tolo. O Eu parecia encarar-lhe, dizer-lhe sobre si mesmo, refletia uma escrita vaidosa, que tolice, como pôde cometer erro tão básico?! Era escritor. Sabia melhor. Pegou a borracha e apagou:

A prática do existir.

Vivo para o excesso. De outra forma não poderia. Vivo pelas horas sem dono. A liberdade sem vigília. As noites são o ambiente perfeito, para o existir praticado em euforia. Vivo para as quebras da rotina. Para os lapsos de conduta que bagunçam o prosseguir estável. Agradeço às instabilidades todas, frutos das quebras, dos lapsos, que só fazer afirmar que posso tomar decisões que as intermináveis sequências e e padrões do existir diário condenam. Vivo pelos atrasos, pelo sono não dormido. Pela conversa com meu melhor amigo madrugada adentro. Pelo cigarro fumado com inconveniente demora. Pelas expectativas quebradas que podem ser recompensadas em triplo. Pelas viagens de supetão, e pelos planos mirabolantes que não executarei. Vivo pelos caminhos mais longos, bem melhor aproveitados, e então pelos atalhos, pela ajuda humana, e por te considerar indispensável. Vivo pela surpresa, o frio na barriga, e quaisquer dores, de ordem emocional ou física, que me façam reconstruir todos os pilares da minha personalidade. Vivo pelos objetos, mas não nego sombras, e usarei minha energia vital na conciliação do Mundo e sua Penumbra. Vivo para o amanhã que posso parar de fumar, para apoiar meu amigo quando ele quiser parar, e darei o primeiro cigarro quando ele quiser voltar. Vivo pelo prazer único e absoluto da escolha, pelo descontrole do desejo e pelos saltos que o homem dá quando se encontra encurralado. Vivo nas engrenagens, e sou fatalmente aquela peça que adora ser mal colocada, funcionar mal a máquina inteira. Vivo quebrando a máquina. Vivo nesses dias.

A prática do existir(II).

Não sei onde reside a energia. Se é mal aplicada, ou se exauriu. Onde mora a força dos desejos plenos, as vontades genuínas. Como enfiar o dedo em uma tomada, para saber a sensação de ter-se eletrecutado. Qual o desejo que galopava frenético em mim quando criança para que eu me arriscasse, depois de todas as palavras adultas, e me atirasse contra o mundo, só pelo desejo de saber como é viver, através da experiência derradeira, a minha a própria?

O que define o ser em existência é o desejo. A matéria que, segundo leis próprias, se rege. Onde anda a minha regência? Meu Eu-Rei? A soberania de viver-se? Vivo pelas obrigações pressupostas em vida. Vivo pela própria obrigação da vida. A vida, um conceito tão bem elaborado que, convence o vivo da sua plenitude, pelo próprio fato da vida. Vida como fato. Não como escolha. Eu aceito. Eu vivo. Eu continuo.

Esses são os dias. Essas são as leis. E a “habilidade de continuar vivo”. Viver, como habilidade. Viver deixa de ser desejo. Viver se constitui por um mundo de promessas. Os livros têm muito o que falar sobre os meus desejos. E a religião. A política. O amor. A felicidade. Todos têm uma cartilha muito bem elaborada sobre os meus desejos. Eu mesmo, em algum lugar soterrado por todas essas verdades, não sei mais o que sinto, não sei dizer o que eu desejo. Mesmo assim, alguns dizem, eu continuo vivo.

Ruínas

Em algum canto muito escuro, escondido. Vive nas sombras, alimentando-se da parte de mim que não há de se iluminar. Lá me espera para todas as vezes que a sanidade me escapa, e em algum sonho, pesadelo, delírio, o encontro.

Me certifico da minha loucura. Ele sorri. Me agradece meio confuso por deixá-lo persistir. Na minha memória, na minha derrota, como a sonhada vida de uma criança natimorta. Aqui o amo, o quero bem, o único lugar que nos é permitido.

Aqui, arrisco dizer, sou feliz. Enganado pela felicidade da ilusão. Minha vertigem cria mundos próprios, eu me esbaldo. Sou dele, ele meu. E toda vida, a paz, os momentos que outrora sonhara agora são possíveis.

Nesse plano não há cursos lineares de sentido, existir não pede coerência. Aqui o destruo, ele me destrói. Não precisamos fingir descontentamento perante a degradação. Essas ruínas são nosso todo. O único, o último, o derradeiro refúgio.

Depois de muitas vidas em alguns segundos, me despeço dele. Tenho de voltar para o meu mundo, para o que esperam de mim. Tenho que me lembrar da face pela qual mais me reconhecem. Treinar um pouco as falas e os trejeitos, do eu que performo que não mais é dele. Volto para vida que vivo, que não mais o cabe. Volto para a sanidade, que não o permite.

Sonho-lembrança

Todo dia pela manhã quando acordo

Te vejo amanhecer em dia

Seu sol raia no horizonte do meu eu

Irradia em belo minha alma fria

Nasce todo dia, amor

Quando entardecer, em mim

Quente seu me aquece

Ausência me faz dormir

Quando noite, contigo sonho

Sonho-lembrança de vida acordada

Vida, hoje, o ensolarado da alma

Os calmos dias, a paz alcançada

Tenho o aqui, o agora: tudo

Você , e a rotação da vida

Sou seu, em satélite, em homem

Te amo, nos todos, os dias.

Noite.

Não consigo dormir.

Os dias têm se arrastado, nas manhãs não acordo, meio dia me obrigo a levantar, morro um pouco todas as tardes no trânsito, faço porcamente meus deveres, rastejo através das horas, converso com pessoas mecanicamente, volto para a casa já no alto da noite, e agora, madrugada adentro: não consigo dormir.

Não durmo porque a noite, silenciosa, calma, fresca, parece o melhor que posso extrair dos dias, e se não o melhor, o máximo. Dias ultimamente me entristecem. Odeio o sol porque me revela cores. O contraste das sombras e os corpos, tenho que fazer por arcar. E já a noite, é toda sombra, me respeita, eu respeito ela.

Ela não me pede que eu sorria ou finja. Ela se aquieta toda para deixar que meus pensamentos tomem forma. Ouço vindo dela os estalos das minhas sinapses. Se senta comigo como uma amiga, que nada tem a dizer, mas que dispõe inteira sua companhia fria.

Muito obrigado noite, por existir. Sem ti não sei como faria enquanto manipulo tristeza. Arca comigo, muito obrigado, nos tempos em que a escuridão é o lugar confortável para vida.

Um trajeto pela cidade de São Paulo durante o sol-se-pôr.

Saí às cinco da tarde. Saí de minha morada no Morumbi em direção à casa de uma amiga, na Aclimação. Em dia de feriado, bom paulistano fugira. Abandonaram a Paulicéia à paz. Saí de minha casa para as ruas, lisas de carros, calçadas de poucas pessoas. E logo que virei a esquina, contra o sol poente, luz amarela emanava sobre toda a cidade, que refletia-se linda, o mais puro e mais belo. O belo mais belo do asfalto em chamas. Belo mais belo dos muros ostensivos, semáforos, faixas de trânsito. E o PARE não parecia me parar em esquinas ocasionais, mas me convidava: acalme-se, deleite a urbanização. O sol pintou a cidade de São Paulo em todo o seu prazer próprio, que frequentemente passamos reto, rápidos, estamos congestionados, atrasados.

E as belíssimas casas do Morumbi que sempre me irritam. Sempre tão silenciosas, tristes, como garotas que cresceram demais, e menstruaram cedo. Parecem o esboço de algo ainda maior, nunca concretizado. Me irritam pelo excesso de zelo. Limpas, impecáveis, brancas, cinzas: assépticas. Quando corto o bairro pelo meio, passando pelo hospital Darcy Vargas sempre me pergunto: quem aqui vive? Como vivem? Sem nunca uma criança brincando com seu cachorro em frente casa. Sem nunca nunca uma mancha, uma umidade aparente, uma árvore velha, o indício do fator humano e da natureza em exercício sobre o concreto. Sempre devidamente pintadas, higienizadas, programadas. Sem nem uma mão suja de terra na parede. Uma marca de bola quicou aqui. Mas hoje o sol irradiava. As casas resplandeciam. Portões brancos pareciam portais radiosos, até o cinza acolhia, parecia chamar para toda uma felicidade possível no interior de cada casa. Imaginei pais carinhosos tomando lições dos filhos no fim do domingo. O chá da tarde servido, pão quente, a companhia de uma vó. Passei pelas ruas reconfortado. O sol devia brilhar assim todos os dias. Cruzei a avenida Morumbi e comecei a descer a Engenheiro Oscar Americano.

Ao descer, do Morumbi desce-se, o Morumbi, esse grande morro de luxo, desço e sinto-me ir mais verdadeiramente para a cidade de São Paulo. O Hospital São Luiz. O Parque Alfredo Volpi. Um hediondo radar de cinquenta quilômetros em uma descida de mão única. Durante a semana sempre buzinam atrás de mim, ultrapassam, sigo sempre à risca os limites de velocidade, e se uma rua me diz dirija assim sinto-me errado em dirigir errado, ninguém respeita, se irritam comigo, minha vagareza correta, mas não hoje. As ruas tranquilas. Sob esse sol resplandecente indo-se embora. Parece se despedir da cidade. Beijar-lhe, acariciar-lhe inteira, torná-la linda. Como um apaixonado que elogia sua apaixonada: Linda! Linda! Linda! E São Paulo se enche toda, orgulhosa de si mesma, como a apaixonada que de quando em quando precisa ouvir. E São Paulo se via, além-rio, além da ponte. O Morumbi ficava para trás. Belo também, em seu máximo. E os radares que recomendam a prudência. E os carros confortáveis, as ruas sinuosas, o Morumbi, uma visão de mágica inventada, um lugar onde pessoas vão ser felizes, bairro sonho de tristezas disfarçadas. Um Morumbi paisagem. Morumbi ficou pra trás.

E durante a ponte Cidade Jardim, quase que não posso descrever o tipo de visão que se tem. A cidade se erguendo em uma grande orla de prédios. O rio emanando o sol, livre de toda sua poluição. Como se reconstituído, o Pinheiros se fingia de alegre, e até se supunha haver vida sob tanto brilho. O Pinheiros, tão triste, tão sujado, parecia um espelho fundamental, origem de toda a vida, casa de todo calor, da matéria pulsante. Ao lado de todos os arranha-céus. Gigantes. Crianças enormes. Desengonçados. Inconcluídos. Todos os prédios pareciam vivos. E a marginal, relativamente vazia, pulsava como veia calma de um imenso coração apaziguado. Passei pelo parque do povo. Crianças e bicicletas e cachorros. Moços, e já não tão moços, mas sob o sol todos moços, corriam. Tudo, prédio, homem, bicho, absorvia o último gole de saúde do dia. Durante essa cidade vazia, quem viu foi quem ficou.

Logo depois da ponte, adentrei o túnel Max Feffer. Não sei quem foi. Mas um fofo. Fofo nascido de nome. Max Feffer. Imaginem um Max Feffer bebê. Max todo fofo. Imaginem-no em suas primeiras palavras: túnel, concreto, mamãe. Que tolice!, eu sei. Max Feffer há de ser político, verificarei quando terminar de escrever, não quero parar. Mas sob tal poente, Max também era brilhante. Max fazia as pessoas se locomoverem. Max levava de um ponto ao outro. Max unia o homem ao seu interesse, assim não nos atrapalhamos nos cruzamentos. Até mesmo Max, todo em concreto, parecia-me um bebê. Um Max Todo Fofo. Tchau Max, e obrigado por me trazer à…

Nove de Julho, toda arborizada. Nove de julho, devidamente calçada. Nove de julho, uma das minhas preferidas, até onde se pode preferir uma avenida. Então prefiro. A nove de julho, toda toda toda. Cheia de sombra, em seu fim, ali pelo meio do Itaim, a 9 de julho toda toda. Paro em seus sinais com certo prazer. Um congestionamento durante a 9 de julho é até menos mortal. Na altura do Colégio Sagrado Coração da Maria, AH!, nove de julho, toda toda. Especialmente toda, mesmo que tímida, escondendo-se à sombra do sol. Crianças observavam o grande poer de suas janelas. Não se aparentavam tristes por sobrarem enclausuradas durante o feriado. Policiais averiguavam as ruas, multavam displicentes, sob a ótica da manutenção de uma ordem fundamental. Inflexíveis, impenetráveis, mas justos, exerciam o poder regulador do bem e do mal.

Na esquina com a Santo Amaro, um outro eixo fundamental. Um cruzamento que lhe diz “escolha bem pois tal escolha pode mudar completamente seu destino”, e te levar à outra São Paulo, de muitas São Paulos, todas as São Paulos, interconectadas. Nunca escolhi diverso. Gosto muito da Nove de julho para abandoná-la agora, e persisto, em meu caminho, novamente crescente, desde o túnel. Subo, subo. E nesse pequeno trecho observo. Lá ao longe. Avenida Paulista. Lá no alto. Avenida Paulista. Tão benquista. Avenida Paulista paulistana. Mas viro…

Porque sou brasileiro, não é, minha Avenida Brasil? Também bela, mas outrora bela. Bela de museu. Passado-bela. Não há como não imaginar, em fim de tarde tão espetacular, sol já quase caído, não há como não imaginar as baronesas, sob sombrinhas rendadas, seus vestidos última moda na Europa, saindo dos casarões, lindas radiantes, de uma hora que se foi, de uma época já-se-pôr. E a avenida Brasil cheira café. Vela. Livro velho. Português barão sinhô. Percorro-a, toda mudada. Transformada em bancos, consultórios, para os notáveis barões de nosso tempo. Uma grande árvore. Um lindo canteiro central, e passo a avenida Brasil. Como ela também passou.

Deixa-que-eu-empurro. Ibirapuera ao longe. Mas não. Hoje não Ibirapuera. Até poderia ir circundando-te, amando-te de longe, vendo os prédios, o lago salpicado dos últimos raios, a marquise democrática, o auditório linguarudo, a Oca nascendo enquanto o sol se põe, mas não. Faço um cruzamento errado- eu que lá no começo desacelerava para estar correto-, e cá me estou, Brigadeiro. Cá me estou. Subindo.

E a Brigadeiro. Estranhíssima. Sempre me assusto com o ônibus acelerado na contra-mão. Tão desolada, a Brigadeiro. Parece mais uma rua larga alargada largada. Liga nada tão bem, mas serve. Serve porque paulistano não presta muita atenção. Desculpa Brigadeiro, mas o sol está terminando de se pôr. E não sobra muita mágica para romantizar-te, exaltá-la. Você me parece toda triste, obscura, íngreme, vadia, toda suja, feia, e não tem o charme de puta da Augusta. Chego à paulista, não a olho. Cruzo rapidamente, é meu último destino real. Pegarei minha amiga em sua casa, depois viremos, então lhe passo, paulista paulistana, tão bonita e paulistana que dispensa o sol, o bem, e o mal. Casa-se perfeitamente com a noite. É casa da noite. Está no coração. Da cidade. Do Meu. Do seu. Eu sei. E a paulista, esse ato inteiro, dispensa o verbo, aqui, hoje, dispensa qualquer romantização repentina. Continuo pela Brigadeiro, mas dessa vez descendo, passou-se o cume, o pico da Brigadeiro, a Paulista, onde ela se eleva, e de resto se decai. Decai-se toda a Brigadeiro. Bares. Bêbados. Um Extra 24 horas. E a Treze de Maio lhe cruza, em nível, em viaduto, estranho!. Não me importa mais. Passo por baixo do viaduto e logo viro, novamente dentro de um bairro, Bela Vista, mas que bela!…

Prédios elegantes, todos gritam “apartamentos justos em tamanho, todos com preço elevado, mas perto de tudo que importa da cidade monumental”. Bela Vista, que bela vista. Um lugar bom de se viver. Um lugar caro pra se viver. Mas uma São Paulo educada, verdadeiramente urbana, um metrô logo ali, aqui, acolá. Bela Vista, que bela vista da sacada do apartamento. Rua, gente, gente, prédio, prédio, prédio, carro, carro, carro, carro. A Bela vista, a contemplação. Olhe tudo que importa, da sua sacada, sua janela. Bela vista, que bela vista. Penso aqui “como é que foi o sol?”. Dá pra ver, Bela Vista? Ou a mandíbula dos arranha-céus deixa a paisagem dentada. Chego ao fim de uma rua, viro em outra. Acabou o sol. Estou paralelo à 23 de Maio. E ao cruzar o viaduto…

Homens aglomerados em uma fila, esperando a derradeira refeição. O sopão. A pobreza. A miséria assistida. Carros e mais carros e mais carros passam por baixo desavisados. O sol se foi, já se foi minha paixão. Homens, alguns homens, muito homens aglomerados em fila esperando a derradeira refeição. A noite chegou. O frio virá. Homens menos homens do que todos os homens que por baixo do viaduto passam, na 23 apressadíssima de maio, passam, sem saber, sem nunca saber, sem ver nos olhos dos homens esperando a derradeira refeição. A falta de esperança. O comodismo derradeiro. O comodismo triste servido como prato da derradeira refeição. Também lhes passo. Tudo Passa. E em São Paulo ainda mais rápido.

Termino o caminho sobre o viaduto, sigo. Faço um cruzamento estranho, em frente a um Mc Donalds, cruzo a Vergueiro, mas, muito estranho!, para atravessar parece que devo me lançar contra a mão que está por vir. Vai-se por uma contramão ligeira, e então, à salvo, uma rua se faz emergir, já no bairro da Aclimação? O resquício da Liberdade? Não sei. Pego Ruas. Mais uma. Mais uma. É a João Getúlio, esse nome esquisito, essa redundância sonora… mas cheguei. Paro em frente ao prédio, ligo para a minha amiga.

“Já pode descer, estou aqui, não quero interfonar… você deveria ter visto o pôr-do-sol… a cidade estava linda… sim vamos comer alguma coisa… uma cerveja na augusta, pode ser… sim, eu preciso ir na Livraria Cultura, a gente zanza pela Paulista… beijo… desce, vem!”