Recebo como chumbo no peito. E a dor lancinante. E o prazer inesgotável. Não sou como você, nunca sairia ileso. E perco meus cabelos. Minhas unhas inexistem. E ainda me lanço às lanças, na minha mão as pedras, e quem há de gritar na revolução e quem há de lhe cortar a cabeça de sua apatia serei eu. Não posso sair ileso. Não sou você.
Não viro a página e recomeço, recomeços são ilusórios. Sim, reinvento, transformo, revoluciono, adapto, nasço e morro, é minha tarefa diária. Mas nunca recomeço. Nunca poderia. Esquivar-me de tudo o que foi, e não foi, e nunca seria. E me parte o coração todos os dias os dias. Mas sou eu, não sou você, é meu compromisso com a minha vida, minha memória, e com a sua própria, sua falta. De vida. E de memória.
E me contenho à vontade de enfiar-lhe uma faca no ventre em frente plateia aflita. Fatalmente é que se descobriria se a sua carcaça conformada sente algo. Você estrebucharia? Sangraria à morte? Viveria a dor? E talvez nesses segundos precedentes do desfecho cruel você sentisse algo, vivo, e pela primeira vez não saíra ileso. Eu lhe feri a casca, feri-lhe o todo.
Vive como que anestesiado de qualquer consciência. Seu arquétipo de Meursault, seu tolo! Não pensa por não poder pensar-se. Não pensa, e vive, de crime em crime, em tragédias. Não se reflete, vazio, não há nada para ver. E o que é que você tanto encara nos espelhos casuais? A forma? Que forma? De que? Quando se encara no espelho o que é que você vê? E se lhe agrada a vista? Lhe é conforme a paisagem de você?
É. Sei que é. Parte do mundo como ele existe fora construído para agradar garotos como você. Lhe é casa para as vontades. Despeje seus botas sujas na mesa de centro. Acomode-se. Sorria até o último músculo do sorriso lhe for possível. Extraia o que lhe é vital em todos, qualquer um, entregue suas próprias moedas pessoais, e o sexo, e a juventude, e a beleza, e parta. Que de galho em galho é sua vida. E esse é seu mundo, sua parcela.
O meu sei melhor nesse fogo incessante que me queima a pele, de dentro pra fora, queima tudo. Sei melhor no limbo, no gueto, na revolta contra o absurdo, a criação de sentido, o sentido, pois o homem é o macaco que produz sentidos. E vivo pelo sentido, quebrá-los, instaurá-los, é minha tarefa diária. Mas tudo porque não sou você. Eu sou outra coisa. E eu não saio ileso.
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