terça-feira, 8 de novembro de 2011

No diário de dona Maria Eliza

Dia 2

Minha indisposição era mais aparente essa manhã. Acordei com certa vontade de não dissimular o que sentia. Pelo menos até o momento em que viessem reclamar minha presença, então, eu haveria de me mover para não alarmar ninguém. Mas, ainda nas primeiras horas da manhã, me permiti à cama, e lá restei, encolhida, vagando sonâmbula, em alguma matéria anterior ao pensamento. Algo entre o sono e o desperto, sonhos vazios que se mesclam à realidade entorno. Pairando na penumbra do meu quarto, e a rareada luz que vencia o obstáculo das cortinas- vestígio de um dia inteiro que se repetia lá fora- era essa a única fonte que iluminava minhas ideias.

Foi só por volta do meio dia que Roberta, a nova empregada, veio verificar se tudo corria bem, se eu continuava viva, apesar de velha. Eu a disse para se acalmar, que eu estava bem, só havia me demorado até tarde escrevendo o novo diário, e ainda tinha sono. Ela se convenceu, eu me aliviei. De certa forma, é bom ter uma empregada jovem, que desconhece o funcionamento dos velhos. Mal sabe que todas as noites durmo pouco, sempre tarde, e cedo é que acordo, quer queira, quer não.

Mas não menti, não de todo. Ontem me delonguei na minha escrita, mais escolhendo palavras, buscando o que escrever, refletindo, que propriamente escrevendo. O que se há de escrever é curto, é pouco, e a depuração do que em mim ainda é pertinente, o que faz sentido, o reconhecimento pessoal, humano, essa me é a tarefa mais longa. Lembro-me dos nossos dias, quando eram nossos, todos, e as minimidades cotidianas davam fruto às páginas e mais páginas nesse meu habitual confessionário. Eu vivia duas vezes, você dizia. Vivia enquanto ao seu lado, e vivia nas letras, nas palavras do meu diário.

Assim que a moça saiu do quarto, fatalmente, eu já me encontrava desperta, e, se posso afirmar-me como tal, alerta. Decidi não continuar prostrada ao colchão, e, finalmente, dar algum rumo ao fluxo das horas. Não me agradaria preocupar nossos filhos, não gostaria de levantar alardes maiores da minha condição. Apoiei-me, os dois pés no chão, acendi as luzes do quarto. Me dirigi ao guarda-roupas, para despir a camisola, enfiar-me em alguma saia antiquada, combinada a alguma camisa que me identifique velhota. Em que altura passamos a consumir os artigos de idosos? Não poderia dizer o momento em que me tornei a figura de minha vó. Será que, justamente, por sua figura em minha infância ter sido tão presente, será essa a grande influência na estética da minha própria velhice? Meus vestidos todos me anunciam decrépita, florais morbidamente suaves, tons pastéis monótonos como um corpo frio, a peça mais nova, um tailleur preto que me enfiaram na ocasião do seu enterro. Tudo parecia delatar-me. Nada, por ora, me agradava servir.

Contemplando minhas roupas, havia perdido tempo. O almoço, logo estaria pronto, minha falta, caso não comparecesse à mesa dentro de alguns minutos, seria notória. Antônio houvera se oferecido para almoçar comigo, mesmo tendo eu deixado claro que não havia necessidade, que Roberta sempre me fazia companhia às refeições, e que, deslocar-se pela cidade em sua breve hora de almoço, só para me acompanhar, era tanto gentil quanto dispendioso. Mas você sabe como é Antônio, desde pequeno, decidido, irrefreável. É o filho que mais me visita, e, também, de uma maneira que intimamente desaprovo, o que lembra aos outros de me visitarem.

Eu já estava quase irreparavelmente atrasada. Ainda não havia me decidido pelas peças do dia, quando o vi, no canto, obscuro, no extremo da seção do guarda-roupas, envolto em uma capa transparente, muito mais nova do que ele mesmo, a memória do que um dia fora reluzidamente branco, e, nessa ocasião, aparentava-se severamente amarelado no tempo: meu vestido de noiva.

Lembranças vorazes me invadiram. Registros difusos distribuíram em minha massa uma onda de instabilidade. Ecos confusos, dissonância. Meus joelhos ameaçaram ceder, meu corpo vacilou. Me apoiei nas portas do guarda-roupas, percebendo que haveria de me vestir sem mais. Escolhi um conjunto lilás qualquer, rumei para o banho.

Durante o almoço, fui mãe, e para o resto do dia, patroa.

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