Dia 1
Com você foram-se algumas palavras, a razão para usá-las. Enterraram contigo certa parte dessa língua, que por nós era tão apreciada. Há em meu pensamento termos proibidos, e dado meu avanço nos anos, posso culpá-los por essas pequenas faltas, mesmo certeira sendo a consciência de que não me falta a memória, perdê-la um pouco talvez até me aliviasse, o que se expirou em mim é a habilidade de sentir certas coisas. Coisas que só os corações pueris são capazes. Os que não viveram a vida inteira, não têm-se escritos, rabiscados, e rasurados pela tinta dos anos. Habilidades humanas tão grandes que buscam no seio do existir sua manifestação, que se inscrevem e permeiam todo o ser, seus atos. Não sobra em meu espírito, depois de sua partida, espaço suficiente para ser ou sentir algo tão brusco, e esse borrão, seu, último, é o que, nesse momento grisalho, me define.
Na juventude, se cá você estivesse, recordaria comigo, éramos aptos e vivazes por todos os sentimentos, você, do seu modo excêntrico e robusto, eu, apaixonada, mesmo que em minha habitual timidez e fragilidade. A vida toda era porvir, os segundos eram ligeiros e intermináveis, dotados da magia do presente, a vida em seu frágil eterno. Hoje vejo os jovens, nossos netos, sofrendo as primeiras dores afetivas, arcando com as primeiras decepções e inconsequências, tudo sei, tudo vejo de longe, me chegam filtrados em conversas informais com nossos filhos, não me aprofundo, sei que muito me escapa, e aqui posso ser sincera, pouco é que me interessa. Não por não me preocupar com os meus netos, mas pela certeza de que ficarão bem, você a tinha, você sempre teve a certeza, não era, de que mais cedo ou mais tarde, estaríamos bem?
Lembro-me do seu ânimo pelas manhãs, sempre que eu acordava com enxaqueca, você tentaria me agradar trazendo-me o café na cama, e o café sendo proibido, você traria suco de laranja. Até as enxaquecas, irremediáveis que eram, tornavam-se suportáveis, de uma maneira que então, eu, jovem, nunca poderia compreender plenamente. As dores de cabeça nunca poderiam me fazer esquecer sua ternura, mesmo que então eu gozasse dela tão silenciosamente, ocultada em meu sofrimento. Com os anos diminuíram-se as enxaquecas, os hábitos estritamente controlados fizeram por melhorar meu estado de espírito. Foram-se as dores, você também se foi. Quem diria? Eu com minha saúde frágil terminaria por escrever em meu diário a vida e como ela segue, sem você aqui, no curso desses dias. Os dias excedentes. Os dias que escapam à necessidade do sentido, e vive-se, quase sem viver, quase que por inércia. Os dias excedentes.
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