Os dias têm se arrastado, nas manhãs não acordo, meio dia me obrigo a levantar, morro um pouco todas as tardes no trânsito, faço porcamente meus deveres, rastejo através das horas, converso com pessoas mecanicamente, volto para a casa já no alto da noite, e agora, madrugada adentro: não consigo dormir.
Não durmo porque a noite, silenciosa, calma, fresca, parece o melhor que posso extrair dos dias, e se não o melhor, o máximo. Dias ultimamente me entristecem. Odeio o sol porque me revela cores. O contraste das sombras e os corpos, tenho que fazer por arcar. E já a noite, é toda sombra, me respeita, eu respeito ela.
Ela não me pede que eu sorria ou finja. Ela se aquieta toda para deixar que meus pensamentos tomem forma. Ouço vindo dela os estalos das minhas sinapses. Se senta comigo como uma amiga, que nada tem a dizer, mas que dispõe inteira sua companhia fria.
Muito obrigado noite, por existir. Sem ti não sei como faria enquanto manipulo tristeza. Arca comigo, muito obrigado, nos tempos em que a escuridão é o lugar confortável para vida.
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