terça-feira, 8 de novembro de 2011

O casamento.

Ela era tímida, sonolentamente amorosa, de um aspecto frágil, mesmo que de essência inquebrantável. Sonhadora em dias frios, quase vívida em dias quentes. Poder-se-ia chamá-la até de sopro de ar fresco: sua energia vital era como uma brisa suave. Suas ideias eram adequadas ao modo da maioria das moças da sua idade, ainda que, na sua idade, muitas moças já desabrochassem mulheres feitas. Colecionava adesivos em seu caderno. Gostava de filhotes de gatos, temia animais adultos. Supunha gostar de emoções fortes, depois de um único passeio em uma montanha russa. Gostava de pipoca doce e paçoca. Gostava de Jane Austen, viver, Jesus Cristo, e gostava dele:

Ele era de uma doçura confusa, existia charmoso, mesmo que tortamente. Lindo como alguém que constantemente perde o chão sob os pés e necessita apoio. Lindo como uma verdade sem provas, sem estudo: a fé. Gostava de livros, tê-los, cheirá-los, lê-los. Gostava de banhos, lavar tudo de si. Gostava de matinais: pães, café, manteiga. Gostava de si mesmo, contemplar-se, odiar-se, apreender-se nos espelhos. Gostava de ficção, a vida em começo, em meio, amava o fim. Gostava de jazz, e política, e, sim, gostava dela.

Foi em um dia de primavera, o vento soprava suave, o sol irradiava um calor contido: não. Era ela que se irradiava em luz e calor próprios. Ela lhe atravessara o caminho, o brilho prateado de seu sorriso resplandeceu. No instantâneo dos seres: o amor. E como uma casa na tempestade, ele a adentrou, buscando a paz, a temperança.

Ele lhe sorriu, ela não desconfiava. Tímida que era não poderia supor. Ele, em todo seu garbo, seu charme, longilíneo, por ela?! Tão comum, tão simples, e até vulgar, ela se julgava. Mas ele lhe sorria, como se lhe mostrasse um caminho, era definitivo, ela constatava: ele realmente a cortejava. Eram dela os versos mudos que o corpo dele agora emanava. Para ela que ele olhava, como quem via um prêmio, uma vida inteira querendo ser escrita. Ela se achava bela. Ele a encontrara.

O instantâneo dos seres: o amor.

E não tardou: o amor.

Logo se construiu: em amor.

Foram belos dias, mesmo que não todos, mesmo que não durante o dia todo, mesmo que nunca. Era sólido o amor, mesmo que preenchido por lacunas de silêncio, mesmo quando desmistificados e revertidos todos os encantos, mesmo que quebrado.

Ela era inteira ao lado dele, preenchida como um vaso de porcelana. Ele era inteiro, ao lado dela, ele pensava, pois ao lado dela, ele era tudo que gostaria de ser.

E um dia, ela adentrou a Igreja, em seu vestido merecidamente branco, linda como nunca houvera, linda, como neve nos trópicos, linda, como uma heroína que ruma à forca pela fé em seus ideais.

Ele a contemplou do altar, e como nunca, estava inteiro: cilíndrico, belo, engomado em terno habilmente puído, limpo, cheiroso, acima, então, de todos os outros, via-se por fora, contemplava sua vida como num quadro, estava feliz, satisfeito.

Ele lhe tirou o véu, ela eternizou-se em sua mente. Ele contemplava o paraíso, ela lhe contemplava.

A cerimônia correu, alguém haveria de manifestar algo contra tão bela união?

E eu gritei, mesmo que mudo, e minhas palavras explodiram no papel. Esperneei, inerte, em meu movimento de narrador, em minha história como aqui a conto, reconto, dou ao mundo. Sozinho, cá estou, e não combateria nunca sozinho uma vida que pede para ser escrita. Como haveria de impedir tal felicidade de acontecer-lhes, minhas personagens?! Quem sou eu para poupar-lhes a felicidade que tanto almejam ambos? e aqui vos permito…

Foram felizes para sempre.

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