terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Medo.

Eu sou você, não o sou? Cada dia que passa te entendo mais, meu monstro, eu mesmo, todos os dias você parece verter pelas minhas rachaduras. Conforme eu te destruí, te virei, virei você. Conforme estudei seu conceito, tão amplamente, tão arduamente, pra te desmascarar, e te desmascarei, é em mim que a máscara, nesse triste revés, foi lançada.

Todo dia é o seu desespero que eu ouço na minha risada. Seu nariz adunco parece emergir na minha face. Sua pelo imundo, de lobo ferido, parece nascer na minha cara. Sinto que todo o animalesco, o brutal, o sórdido, começa a estampar-me. É em mim que sua maldição foi lançada, não o foi?

Eu sinto sua tristeza no escuro, nas horas de frio em pleno verão, quando quatro paredes permanentemente separam o mundo. É sozinho que você lá estava, não era? É de lá que violentamente você me feriu, não foi? E eu te entendo, hoje, ah! Como te entendo. Hoje que não há nada mais que o escuro.

Eu sou você. Hoje eu sei. É seu gosto que eu sinto na minha boca: o desgosto. É seu discurso que permeia a minha fala. É a dor, derradeira, o aperto forte no peito, sem explicação, mas com um único sujeito. É irremediável o que você sentia, não era? Como veneno que já se alastrou pelo corpo, como incêndio indomável.

Ah, como te entendo, eu-mesmo, eu-monstro. E a culpa que quer se fazer recair em algo outro. Uma desculpa, um sentido, o que lá se iniciou e aqui termina. Mas você nunca achou, não foi? O estopim, o início. A outra ponta da corda, pra unir metades e talvez achar uma resposta, para esse tudo que acontece, como se acontece, aos meninos como nós.

E por que não me disse, quando lá já o sabia? Que não há remédio, é como é, e já estamos sentenciados. Não há lutar contra. Resistir. Só há resignar-se, resignarmo-nos. Por que não me disse, quando lá já o sabia? Que a miséria passa a ser o prato do dia, todos os dias.

Nas minhas mãos as suas garras. Minha mordida recebe suas presas. E não há recuo diante do perigo que em nós certeiro. Não há antídoto. Eu vejo. Vejo e sinto hoje todos os açoites que você sentiu. E nos cantos obscuros que você se refugiava hoje sou eu que me refugio. E tolices como felicidade, plenitude, harmonia, te entendo, são os primeiros conceitos a desaparecer dessa visão pálida.

Chove constantemente na sua cabeça, eu já me sinto nublar. É chuva salobra, lambendo com máximo de zelo as feridas. Sinto meus os seus nervos. Sinto doer em mim suas juntas. Eu me retorço como lá você se retorcia, e sei, hoje, repito, hoje sei: não há ajuda. Ajuda para a boca borbulhando a raiva. Ajuda para essa sarna alastrada que nos faz querer tirar a pele com os próprios dentes.

E me retiro para o seu exílio. Eu me puno à sua pena. Me conformo com o rosnar solitário, e talvez, em alguma trincheira te encontro, meu monstro, o outro, o anterior a mim, a sentir todas as dores profundas, a sofrer todos os medos indizíveis, a vagar no mais inóspito vazio, a perder todos os traços de homem, e tornar-se lobo, execrado por cordeiros cruéis.

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