terça-feira, 8 de novembro de 2011

O pó.

Quando se dilui o que é que sobra? Todos os teus sais e dores especialmente concentrados nesse espaço que lhe constitui. Quando se dilui, em tantos goles, e bebe desenfreadamente os copos, um por um, inteiros, repetidos, tantos, quando se dilui o que lhe sobra? Quando se afoga para se esquecer. Bebe o dilúvio inteiro para continuar a ser. Manter pulsando veias todas tão contraídas. Cai como uma gota de sangue no oceano. Bebe como um anfíbio beberia se achasse o oásis no deserto. Aumenta-se o volume, arfa o peito. Realoca costelas, dilata o estômago. O esôfago expande-se em um poço profundo. A língua comemora, cambalhotas peristálticas. Arregala olhos, umidifica narinas. É quase novo, está hidratado. Quando se dilui, desse modo como bebe a água, questão de tempo até a atmosfera tragar-lhe inteiro o líquido, sua solução, e você evapora, e daí os calores, e daí a secura, e daí desconsolo, e dor, e sede. Quando se dilui em tantos goles, copos, água, adia o dia em que um dia você inteiro secará. Invariavelmente secará. Nada sobra. Tudo seca.

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