Em algum canto muito escuro, escondido. Vive nas sombras, alimentando-se da parte de mim que não há de se iluminar. Lá me espera para todas as vezes que a sanidade me escapa, e em algum sonho, pesadelo, delírio, o encontro.
Me certifico da minha loucura. Ele sorri. Me agradece meio confuso por deixá-lo persistir. Na minha memória, na minha derrota, como a sonhada vida de uma criança natimorta. Aqui o amo, o quero bem, o único lugar que nos é permitido.
Aqui, arrisco dizer, sou feliz. Enganado pela felicidade da ilusão. Minha vertigem cria mundos próprios, eu me esbaldo. Sou dele, ele meu. E toda vida, a paz, os momentos que outrora sonhara agora são possíveis.
Nesse plano não há cursos lineares de sentido, existir não pede coerência. Aqui o destruo, ele me destrói. Não precisamos fingir descontentamento perante a degradação. Essas ruínas são nosso todo. O único, o último, o derradeiro refúgio.
Depois de muitas vidas em alguns segundos, me despeço dele. Tenho de voltar para o meu mundo, para o que esperam de mim. Tenho que me lembrar da face pela qual mais me reconhecem. Treinar um pouco as falas e os trejeitos, do eu que performo que não mais é dele. Volto para vida que vivo, que não mais o cabe. Volto para a sanidade, que não o permite.
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