terça-feira, 8 de novembro de 2011

Um trajeto pela cidade de São Paulo durante o sol-se-pôr.

Saí às cinco da tarde. Saí de minha morada no Morumbi em direção à casa de uma amiga, na Aclimação. Em dia de feriado, bom paulistano fugira. Abandonaram a Paulicéia à paz. Saí de minha casa para as ruas, lisas de carros, calçadas de poucas pessoas. E logo que virei a esquina, contra o sol poente, luz amarela emanava sobre toda a cidade, que refletia-se linda, o mais puro e mais belo. O belo mais belo do asfalto em chamas. Belo mais belo dos muros ostensivos, semáforos, faixas de trânsito. E o PARE não parecia me parar em esquinas ocasionais, mas me convidava: acalme-se, deleite a urbanização. O sol pintou a cidade de São Paulo em todo o seu prazer próprio, que frequentemente passamos reto, rápidos, estamos congestionados, atrasados.

E as belíssimas casas do Morumbi que sempre me irritam. Sempre tão silenciosas, tristes, como garotas que cresceram demais, e menstruaram cedo. Parecem o esboço de algo ainda maior, nunca concretizado. Me irritam pelo excesso de zelo. Limpas, impecáveis, brancas, cinzas: assépticas. Quando corto o bairro pelo meio, passando pelo hospital Darcy Vargas sempre me pergunto: quem aqui vive? Como vivem? Sem nunca uma criança brincando com seu cachorro em frente casa. Sem nunca nunca uma mancha, uma umidade aparente, uma árvore velha, o indício do fator humano e da natureza em exercício sobre o concreto. Sempre devidamente pintadas, higienizadas, programadas. Sem nem uma mão suja de terra na parede. Uma marca de bola quicou aqui. Mas hoje o sol irradiava. As casas resplandeciam. Portões brancos pareciam portais radiosos, até o cinza acolhia, parecia chamar para toda uma felicidade possível no interior de cada casa. Imaginei pais carinhosos tomando lições dos filhos no fim do domingo. O chá da tarde servido, pão quente, a companhia de uma vó. Passei pelas ruas reconfortado. O sol devia brilhar assim todos os dias. Cruzei a avenida Morumbi e comecei a descer a Engenheiro Oscar Americano.

Ao descer, do Morumbi desce-se, o Morumbi, esse grande morro de luxo, desço e sinto-me ir mais verdadeiramente para a cidade de São Paulo. O Hospital São Luiz. O Parque Alfredo Volpi. Um hediondo radar de cinquenta quilômetros em uma descida de mão única. Durante a semana sempre buzinam atrás de mim, ultrapassam, sigo sempre à risca os limites de velocidade, e se uma rua me diz dirija assim sinto-me errado em dirigir errado, ninguém respeita, se irritam comigo, minha vagareza correta, mas não hoje. As ruas tranquilas. Sob esse sol resplandecente indo-se embora. Parece se despedir da cidade. Beijar-lhe, acariciar-lhe inteira, torná-la linda. Como um apaixonado que elogia sua apaixonada: Linda! Linda! Linda! E São Paulo se enche toda, orgulhosa de si mesma, como a apaixonada que de quando em quando precisa ouvir. E São Paulo se via, além-rio, além da ponte. O Morumbi ficava para trás. Belo também, em seu máximo. E os radares que recomendam a prudência. E os carros confortáveis, as ruas sinuosas, o Morumbi, uma visão de mágica inventada, um lugar onde pessoas vão ser felizes, bairro sonho de tristezas disfarçadas. Um Morumbi paisagem. Morumbi ficou pra trás.

E durante a ponte Cidade Jardim, quase que não posso descrever o tipo de visão que se tem. A cidade se erguendo em uma grande orla de prédios. O rio emanando o sol, livre de toda sua poluição. Como se reconstituído, o Pinheiros se fingia de alegre, e até se supunha haver vida sob tanto brilho. O Pinheiros, tão triste, tão sujado, parecia um espelho fundamental, origem de toda a vida, casa de todo calor, da matéria pulsante. Ao lado de todos os arranha-céus. Gigantes. Crianças enormes. Desengonçados. Inconcluídos. Todos os prédios pareciam vivos. E a marginal, relativamente vazia, pulsava como veia calma de um imenso coração apaziguado. Passei pelo parque do povo. Crianças e bicicletas e cachorros. Moços, e já não tão moços, mas sob o sol todos moços, corriam. Tudo, prédio, homem, bicho, absorvia o último gole de saúde do dia. Durante essa cidade vazia, quem viu foi quem ficou.

Logo depois da ponte, adentrei o túnel Max Feffer. Não sei quem foi. Mas um fofo. Fofo nascido de nome. Max Feffer. Imaginem um Max Feffer bebê. Max todo fofo. Imaginem-no em suas primeiras palavras: túnel, concreto, mamãe. Que tolice!, eu sei. Max Feffer há de ser político, verificarei quando terminar de escrever, não quero parar. Mas sob tal poente, Max também era brilhante. Max fazia as pessoas se locomoverem. Max levava de um ponto ao outro. Max unia o homem ao seu interesse, assim não nos atrapalhamos nos cruzamentos. Até mesmo Max, todo em concreto, parecia-me um bebê. Um Max Todo Fofo. Tchau Max, e obrigado por me trazer à…

Nove de Julho, toda arborizada. Nove de julho, devidamente calçada. Nove de julho, uma das minhas preferidas, até onde se pode preferir uma avenida. Então prefiro. A nove de julho, toda toda toda. Cheia de sombra, em seu fim, ali pelo meio do Itaim, a 9 de julho toda toda. Paro em seus sinais com certo prazer. Um congestionamento durante a 9 de julho é até menos mortal. Na altura do Colégio Sagrado Coração da Maria, AH!, nove de julho, toda toda. Especialmente toda, mesmo que tímida, escondendo-se à sombra do sol. Crianças observavam o grande poer de suas janelas. Não se aparentavam tristes por sobrarem enclausuradas durante o feriado. Policiais averiguavam as ruas, multavam displicentes, sob a ótica da manutenção de uma ordem fundamental. Inflexíveis, impenetráveis, mas justos, exerciam o poder regulador do bem e do mal.

Na esquina com a Santo Amaro, um outro eixo fundamental. Um cruzamento que lhe diz “escolha bem pois tal escolha pode mudar completamente seu destino”, e te levar à outra São Paulo, de muitas São Paulos, todas as São Paulos, interconectadas. Nunca escolhi diverso. Gosto muito da Nove de julho para abandoná-la agora, e persisto, em meu caminho, novamente crescente, desde o túnel. Subo, subo. E nesse pequeno trecho observo. Lá ao longe. Avenida Paulista. Lá no alto. Avenida Paulista. Tão benquista. Avenida Paulista paulistana. Mas viro…

Porque sou brasileiro, não é, minha Avenida Brasil? Também bela, mas outrora bela. Bela de museu. Passado-bela. Não há como não imaginar, em fim de tarde tão espetacular, sol já quase caído, não há como não imaginar as baronesas, sob sombrinhas rendadas, seus vestidos última moda na Europa, saindo dos casarões, lindas radiantes, de uma hora que se foi, de uma época já-se-pôr. E a avenida Brasil cheira café. Vela. Livro velho. Português barão sinhô. Percorro-a, toda mudada. Transformada em bancos, consultórios, para os notáveis barões de nosso tempo. Uma grande árvore. Um lindo canteiro central, e passo a avenida Brasil. Como ela também passou.

Deixa-que-eu-empurro. Ibirapuera ao longe. Mas não. Hoje não Ibirapuera. Até poderia ir circundando-te, amando-te de longe, vendo os prédios, o lago salpicado dos últimos raios, a marquise democrática, o auditório linguarudo, a Oca nascendo enquanto o sol se põe, mas não. Faço um cruzamento errado- eu que lá no começo desacelerava para estar correto-, e cá me estou, Brigadeiro. Cá me estou. Subindo.

E a Brigadeiro. Estranhíssima. Sempre me assusto com o ônibus acelerado na contra-mão. Tão desolada, a Brigadeiro. Parece mais uma rua larga alargada largada. Liga nada tão bem, mas serve. Serve porque paulistano não presta muita atenção. Desculpa Brigadeiro, mas o sol está terminando de se pôr. E não sobra muita mágica para romantizar-te, exaltá-la. Você me parece toda triste, obscura, íngreme, vadia, toda suja, feia, e não tem o charme de puta da Augusta. Chego à paulista, não a olho. Cruzo rapidamente, é meu último destino real. Pegarei minha amiga em sua casa, depois viremos, então lhe passo, paulista paulistana, tão bonita e paulistana que dispensa o sol, o bem, e o mal. Casa-se perfeitamente com a noite. É casa da noite. Está no coração. Da cidade. Do Meu. Do seu. Eu sei. E a paulista, esse ato inteiro, dispensa o verbo, aqui, hoje, dispensa qualquer romantização repentina. Continuo pela Brigadeiro, mas dessa vez descendo, passou-se o cume, o pico da Brigadeiro, a Paulista, onde ela se eleva, e de resto se decai. Decai-se toda a Brigadeiro. Bares. Bêbados. Um Extra 24 horas. E a Treze de Maio lhe cruza, em nível, em viaduto, estranho!. Não me importa mais. Passo por baixo do viaduto e logo viro, novamente dentro de um bairro, Bela Vista, mas que bela!…

Prédios elegantes, todos gritam “apartamentos justos em tamanho, todos com preço elevado, mas perto de tudo que importa da cidade monumental”. Bela Vista, que bela vista. Um lugar bom de se viver. Um lugar caro pra se viver. Mas uma São Paulo educada, verdadeiramente urbana, um metrô logo ali, aqui, acolá. Bela Vista, que bela vista da sacada do apartamento. Rua, gente, gente, prédio, prédio, prédio, carro, carro, carro, carro. A Bela vista, a contemplação. Olhe tudo que importa, da sua sacada, sua janela. Bela vista, que bela vista. Penso aqui “como é que foi o sol?”. Dá pra ver, Bela Vista? Ou a mandíbula dos arranha-céus deixa a paisagem dentada. Chego ao fim de uma rua, viro em outra. Acabou o sol. Estou paralelo à 23 de Maio. E ao cruzar o viaduto…

Homens aglomerados em uma fila, esperando a derradeira refeição. O sopão. A pobreza. A miséria assistida. Carros e mais carros e mais carros passam por baixo desavisados. O sol se foi, já se foi minha paixão. Homens, alguns homens, muito homens aglomerados em fila esperando a derradeira refeição. A noite chegou. O frio virá. Homens menos homens do que todos os homens que por baixo do viaduto passam, na 23 apressadíssima de maio, passam, sem saber, sem nunca saber, sem ver nos olhos dos homens esperando a derradeira refeição. A falta de esperança. O comodismo derradeiro. O comodismo triste servido como prato da derradeira refeição. Também lhes passo. Tudo Passa. E em São Paulo ainda mais rápido.

Termino o caminho sobre o viaduto, sigo. Faço um cruzamento estranho, em frente a um Mc Donalds, cruzo a Vergueiro, mas, muito estranho!, para atravessar parece que devo me lançar contra a mão que está por vir. Vai-se por uma contramão ligeira, e então, à salvo, uma rua se faz emergir, já no bairro da Aclimação? O resquício da Liberdade? Não sei. Pego Ruas. Mais uma. Mais uma. É a João Getúlio, esse nome esquisito, essa redundância sonora… mas cheguei. Paro em frente ao prédio, ligo para a minha amiga.

“Já pode descer, estou aqui, não quero interfonar… você deveria ter visto o pôr-do-sol… a cidade estava linda… sim vamos comer alguma coisa… uma cerveja na augusta, pode ser… sim, eu preciso ir na Livraria Cultura, a gente zanza pela Paulista… beijo… desce, vem!”

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