domingo, 29 de janeiro de 2012

Os insetos: procissão


Escadaria abaixo como se num formigueiro adentrasse. Pago pois paga-se, e vamos todos apertados. Velozes, rápido, 100km em linha reta ou em passos. Velozes, rápido, de modo que uns aos outros nos atropelássemos. A TV até no metrô me convence da utilidade da vida: Meu bairro valorizou, minha existência ficou mais digna. Em uma linha disforme seguimos desacordados, como em transe profundo, em ritmo programado. Como se a qualquer momento um dedo divino massacrasse inteira a procissão, e o cheiro forte que exala os corpos dos humanos, operárias. Alguns correriam desnorteados em busca do refúgio que não tem. O dedo divino que mata será da mão de quem? E a TV do metrô me convence que tão feliz eu nunca fui. O frio do vagão subterrâneo me acalenta o interior. Volto a subir as escada rumo ao mundo acima, que me espera. Já fora fumo um cigarro, já esquecido de mim, vou.

O pássaro o céu


O que há que há que pia como pássaro engaiolado sob os seus modos contidos? E sobre o pássaro mesmo que enclausurado ele voa? E o que é que é que o seu corpo me entoa nesse canto mudo, som não verbal, tudo o que o céu sabe do pássaro é verdade mesmo que não saiba o pássaro?
Eu sou eu sou o céu para onde você poderia voar ou sou eu sou o céu será sua derradeira gaiola? A liberdade será gratificante ou aterradora? Pássaro preso mesmo que não voa ainda é pássaro? Asa do pássaro que nunca conheceu o céu é asa?
O que há que há no céu que não há nada e pássaro nenhum voa existirá céu mesmo que inabitado céu existirá? Será o céu o fim do pássaro ou pássaro se acostuma ao céu gradeado e assim contido o pássaro ainda se lembrará do céu?
Eu sou eu se seu o céu será que promessa de vida será o céu se seu? Tão amplo e sem beiras todo em ar e sem memórias. Que promessa de vida sou eu o céu será se em si céu não é vida? Sem pássaro céu não é nada.
E o pássaro sem céu será pássaro será vida? Céu sem pássaro é liberdade esquecida. E para o pássaro o que o conforto da gaiola significa? Terá o pássaro conscientemente se retido? E escolhido a vida do seu carcereiro? Pássaro engaiolado é o homem refletido.
Se seu eu seria o céu, seu limite, o infinito. Se só, inexisto céu.

O homem da sonda


Em um cruzamento desimportante o vi pedindo. Quando o semáforo fechou-se em vermelho fechou-se a minha passagem. Eu, calejado que já estou com os pedintes nas ruas da cidade, de primeiro não lhe dei atenção alguma. Era qualquer outro, quase que nenhum.
Eu era o terceiro na fila de carros, na minha faixa localizado. Pronto para seguir em frente assim que o verde me indicasse, e o desvalido entre as faixas apelava para os vidros fechados, para a plateia que não se comovia, todos nós interessados em seguir, deixar-lhe logo pra trás. Ele pedia.
Só quando intimidado pelo tom ameaçador de um mendigo ou comovido por nenhum motivo especial é que eu vasculho meu carro e minha carteira em busca das moedas. Contribuo para a próxima dose de pinga, próxima pedra de crack, e até mesmo um pão.
São tantos os pedintes aglomerados pelo centro da cidade, sob viadutos, dormindo nas calçadas, abordando pessoas na rua, tantos, que se eu me comovesse com cada um que me passa ao longo do dia sofreria um significativo rombo no meu contado orçamento.
Foi só então, depois desses pensamentos comuns, que o vi inteiro, prostrado, em frente à janela do meu carro, eu o vi. De resto ele era como um mendigo qualquer, maltrapilho, imundo, com cor de sarjeta. E mesmo que eu nunca tenha aberto o vidro senti seu cheiro horrível, como carne apodrecendo, ele era quase como todos os outros.
Uma das mãos, como tantas, se erguia e torcia-se em súplica. Na outra, o pobre homem segurava uma sonda urinária que o diferenciava dos outros. Um terrível aparelho, uma bolsa plástica hospitalar, com um punhado do líquido amarelado. Por um cano ele segurava sua desgraça à vista e o outro duto sumia por entre suas vestes sujas. Uma das mãos expunha a miséria absoluta, a outra me implorava a minha humanidade.
Fechei os olhos sem conseguir lhe responder nada, sem ao menos abrir o vidro e ter qualquer pedido verbalizado. O sinal se abriu, confuso e automático engatei a primeira, acelerei, deixei o homem pra trás. Tremia, minha visão estava embaralhava tamanho desconcerto, eu conhecia bem o caminho, o faço todos os dias, dentro de pouco tempo e com algum esforço cheguei a salvo em casa.
Na noite seguinte, passando pelo mesmo local, o homem não havia saído da minha cabeça. Dessa vez eu estava preparado, estava decidido a lhe dar moedas que conscientemente acumulei ao longo do dia. Amontoadas no fundo da minha carteira elas me incomodam, não custava.
O homem não estava lá, fiquei decepcionado. E também sentia certo alívio por não encarar novamente a miséria exposta de maneira tão feroz. O sinal novamente se abriu e eu segui a salvo para casa.
Dias se passaram e o homem não saiu da minha cabeça. Sempre me preparando para a abordagem, mas ele não comparecia. Alguns dias mais e eu achei provável até que tivesse morrido, é comum entre mendigos, especialmente em se tratando de um em situação tão crítica. O sinal abriu, eu seguia.
Por algum tempo fui mais generoso com os pedintes dos semáforos, dei moedas, troquei palavras avulsas. Mais dias se passaram, esgotaram-se as moedas, deixei de me importar, são tantos afinal, o sinal abriu, eu segui. Me esqueci do homem no mendigo, eu segui.
Mas o sinal fechou.
Um dia enquanto eu novamente me encontrava distraído o sinal se fechou, eu parei. Não estava preparado, meu vidro se encontrava aberto, me encontrava conforme na minha faixa, ouvia música alta no carro, absorto em mim mesmo que sou não percebi quando o pobre diabo se aproximou, sua sonda na mão, sua miséria, sua súplica. O sinal fechou.
Odor nenhum se exalava, ele era inodoro. O líquido do plástico era diluído, incolor. Ele não verbalizou coisa alguma, mal me olhava, e era a própria vaguidão que me atravessava, seu vazio que era meu. Eu tremia, as moedas dessa vez as tinha dado todas, minha cabeça no instinto balançou em movimento de negação. O pobre homem se foi, para além da minha vista, para outros carros, outras pessoas. O sinal abriu, nós seguimos todos. Sem resistência alguma ele ficou.
Eu considerei alterar meu trajeto, talvez até o tenha feito por alguns dias enquanto me era viva a lembrança do homem na sonda, de tamanha miséria exposta, mas o cruzamento em questão é o caminho mais curto que faço para casa, espontaneamente voltei ao meu trajeto habitual.
O vi de novo, o homem. Dessa vez ele se aglomerava entre os mendigos, eram três ou quatro ao todo. E assim, diluído entre o seus, ele se tornava menos assustador, mais banal. O requinte de sua tragédia se perdia, eu estava novamente calejado. O sinal se abriu, não o vejo mais, não é mais homem, é mendigo, se aglomerou aos outros. Sua sonda se soma às tragédias cotidianas. O sinal abriu, eu segui.
O sinal se abre e se fecha tantas vezes. Hoje mesmo passei pelo cruzamento e lembrei dele, ele não se encontrava. Até cogitei a possibilidade de ter morrido, é tão comum entre mendigos. Nunca lhe dei moeda alguma, nada que eu pudesse lhe dar sanaria tanta miséria, me consolo. E sigo, os sinais abrem.
A moeda que lhe falta falta em mim por não poder lhe dar. Não poderia lhe dar moeda alguma do orçamento contado que sou. Mas sinais se abrem, eu sigo, até o próximo, de sinal em sinal eu sigo. Você fica, pobre diabo, na sua vida que só acontece quando os sinais se fecham.

Não há o que ver

O ano passou e mesmo que alguém tenha se matado alguém nasce quando a carne subiu com o aluguel que aumentou e não há o que ver depois que a madrugada caiu alguns voltaram a sorrir quando eu bebi pois alguém morrerá mas não há o que ver do dólar que subiu da crise que aumentou não há o que ver porque eu voltei a sorrir logo quando o ano nasceu e o aluguel mudou e já não se há o que ver depois que o céu desabou fazendo o cachorro latir pela gata que morreu não há o que ver no que alguém se amou já que um foi assaltado porque alguém viajou o emprego cresceu ainda que alguém tenha se matado já não há o que ver porque o sonho morreu e Deus se converteu e o seu tempo ruiu logo não há o que ver da pobreza que aumentou mesmo com a renda que se distribuiu porque a inflação nos matou e não há o que ver e já não há nada para ver depois que alguém foi embora alguém logo chegou atrasado sendo que o trânsito só piora já não há o que ver.

Sal


Que me contrai artérias e vias. Me mata e me salva nos semáforos ocasionais. Como preso em permanente congestionamento meu amigo me diria nada se extrai sobre o congestionamento ele diria nada se narra. O que dizer do que eu extraio dos semáforos ocasionais? Do vermelho reluzente perpétuo barrando o fluir do sentido o movimento da vida o que se extrai? Nada se extrai ele diria. Nada se extrai eu concordo eu diria. Nada se extrai tudo se retrai quando se extrai esse. Sal. E se contrai o duto responsável pela passagem o sentido o movimento da vida. Que salva e que aniquila eu diria. E como se depura e qual seria a medida? Não se responde. Desse. Sal. Que se colhe e se doa e se extrai e que tanto contrai e retrai-nos a todos. Ninguém sabe. Ninguém nunca respondeu. O que se perde quando se doa e o que se ganha? E o que se ganha quando se perde e o que se doa? E do que dói quando se doa e eventualmente se perde algo se ganha? E o que se ganha quando se ganha e alguém se ganha quando ganhou? Quando se ganha? Quem se doou? Quem se perde todos sabem todos conhecem alguém cujo. Sal. Se esgotou. Mas ganhar significa encher-se com o. Sal da vida? Eu não sei. E você na minha frente, o outro. Você que todos os dias eu me cruzo para te alcançar. Você que também vive em mim e do meu chão eu só te colho. E na água do meu do seu do nosso mar depuro a nossa relação. É meu é seu é nosso esse mar? E desse. Sal. Que dispomos faltará em algum lugar? E quando nos contraímos demais e quando eventualmente nos relaxamos? Falo por mim quando recolho-me todo em. Sal. Falo por mim quando me contraio e me relaxo. O tudo. E não seria a tarefa mais solitária do mundo deixar-se evaporar para alcançar o estado concentrado do ser? E não será igualmente solitário hidratar-se e deixar-se fluir para o estado diluído do si? E o mundo, o que colhe do. Sal? O que verdadeiramente se impõe quando me impõe o mundo esse semáforo pontual? O que eu perco o que eu ganho o que é o. Sal? E o que você me impõe o que você verdadeiramente me impõe quando me impõe seu semáforo pessoal? E eu paro. E eu sinto tão dilaceradamente o excesso e a falta do. Sal. Que se igualam. Da falta do. Sal. Se narra. Do excesso do. Sal. Também se narra. Mas e do próprio. Sal. O que se disse? Qual o sal desse romance? Já perguntaram. E debruçam-se sobre o sal de cada romance muitos ao longo da história do tempo. Sobre a falta sobre o excesso trataram. Mas é do. Sal da vida. Que trato. Desse que se ganha e se perde no trato. Que nunca se ganha nunca se perde eu diria. Mas que somos fatalmente atingidos pela concentração ao redor. Eu diria? Do Sal nada se sabe mesmo que se saiba o tempo todo. Eu diria. Eu diria? Do Sal se vive e se morre e um dia cessa o movimento vital. Do Sal quem não dispõe e quem não recebe em vida já cessou. Do Sal pessoas verdadeiramente graciosas são aquelas que o manipulam se o manipulam de modo a não deixar-se notar o próprio Sal. Eu noto. Do Sal não sei meu Sal. E depois de enxergá-lo é possível esquecê-lo? E é possível passar pela vida sem sabê-lo e será melhor? E quando falta no outro é saudável oferecer-lhe o seu e do contrário aceitar o do outro? Do Sal eu não sei quando sei. Quando esqueço me lembro que quando lembro me esqueço. Do Sal nada se narra mesmo que ele seja tudo. E durante as vias contraídas. Durante os semáforos casuais pontuais pessoais. Nas minhas veias. No que vem no que vai no que volta sempre há falta e excesso de Sal. E o Sal cessa. E o Sal resiste. Se perpetua. Não importa. Do nosso Sal perdura o sal. O sal se narra.