domingo, 29 de janeiro de 2012

O homem da sonda


Em um cruzamento desimportante o vi pedindo. Quando o semáforo fechou-se em vermelho fechou-se a minha passagem. Eu, calejado que já estou com os pedintes nas ruas da cidade, de primeiro não lhe dei atenção alguma. Era qualquer outro, quase que nenhum.
Eu era o terceiro na fila de carros, na minha faixa localizado. Pronto para seguir em frente assim que o verde me indicasse, e o desvalido entre as faixas apelava para os vidros fechados, para a plateia que não se comovia, todos nós interessados em seguir, deixar-lhe logo pra trás. Ele pedia.
Só quando intimidado pelo tom ameaçador de um mendigo ou comovido por nenhum motivo especial é que eu vasculho meu carro e minha carteira em busca das moedas. Contribuo para a próxima dose de pinga, próxima pedra de crack, e até mesmo um pão.
São tantos os pedintes aglomerados pelo centro da cidade, sob viadutos, dormindo nas calçadas, abordando pessoas na rua, tantos, que se eu me comovesse com cada um que me passa ao longo do dia sofreria um significativo rombo no meu contado orçamento.
Foi só então, depois desses pensamentos comuns, que o vi inteiro, prostrado, em frente à janela do meu carro, eu o vi. De resto ele era como um mendigo qualquer, maltrapilho, imundo, com cor de sarjeta. E mesmo que eu nunca tenha aberto o vidro senti seu cheiro horrível, como carne apodrecendo, ele era quase como todos os outros.
Uma das mãos, como tantas, se erguia e torcia-se em súplica. Na outra, o pobre homem segurava uma sonda urinária que o diferenciava dos outros. Um terrível aparelho, uma bolsa plástica hospitalar, com um punhado do líquido amarelado. Por um cano ele segurava sua desgraça à vista e o outro duto sumia por entre suas vestes sujas. Uma das mãos expunha a miséria absoluta, a outra me implorava a minha humanidade.
Fechei os olhos sem conseguir lhe responder nada, sem ao menos abrir o vidro e ter qualquer pedido verbalizado. O sinal se abriu, confuso e automático engatei a primeira, acelerei, deixei o homem pra trás. Tremia, minha visão estava embaralhava tamanho desconcerto, eu conhecia bem o caminho, o faço todos os dias, dentro de pouco tempo e com algum esforço cheguei a salvo em casa.
Na noite seguinte, passando pelo mesmo local, o homem não havia saído da minha cabeça. Dessa vez eu estava preparado, estava decidido a lhe dar moedas que conscientemente acumulei ao longo do dia. Amontoadas no fundo da minha carteira elas me incomodam, não custava.
O homem não estava lá, fiquei decepcionado. E também sentia certo alívio por não encarar novamente a miséria exposta de maneira tão feroz. O sinal novamente se abriu e eu segui a salvo para casa.
Dias se passaram e o homem não saiu da minha cabeça. Sempre me preparando para a abordagem, mas ele não comparecia. Alguns dias mais e eu achei provável até que tivesse morrido, é comum entre mendigos, especialmente em se tratando de um em situação tão crítica. O sinal abriu, eu seguia.
Por algum tempo fui mais generoso com os pedintes dos semáforos, dei moedas, troquei palavras avulsas. Mais dias se passaram, esgotaram-se as moedas, deixei de me importar, são tantos afinal, o sinal abriu, eu segui. Me esqueci do homem no mendigo, eu segui.
Mas o sinal fechou.
Um dia enquanto eu novamente me encontrava distraído o sinal se fechou, eu parei. Não estava preparado, meu vidro se encontrava aberto, me encontrava conforme na minha faixa, ouvia música alta no carro, absorto em mim mesmo que sou não percebi quando o pobre diabo se aproximou, sua sonda na mão, sua miséria, sua súplica. O sinal fechou.
Odor nenhum se exalava, ele era inodoro. O líquido do plástico era diluído, incolor. Ele não verbalizou coisa alguma, mal me olhava, e era a própria vaguidão que me atravessava, seu vazio que era meu. Eu tremia, as moedas dessa vez as tinha dado todas, minha cabeça no instinto balançou em movimento de negação. O pobre homem se foi, para além da minha vista, para outros carros, outras pessoas. O sinal abriu, nós seguimos todos. Sem resistência alguma ele ficou.
Eu considerei alterar meu trajeto, talvez até o tenha feito por alguns dias enquanto me era viva a lembrança do homem na sonda, de tamanha miséria exposta, mas o cruzamento em questão é o caminho mais curto que faço para casa, espontaneamente voltei ao meu trajeto habitual.
O vi de novo, o homem. Dessa vez ele se aglomerava entre os mendigos, eram três ou quatro ao todo. E assim, diluído entre o seus, ele se tornava menos assustador, mais banal. O requinte de sua tragédia se perdia, eu estava novamente calejado. O sinal se abriu, não o vejo mais, não é mais homem, é mendigo, se aglomerou aos outros. Sua sonda se soma às tragédias cotidianas. O sinal abriu, eu segui.
O sinal se abre e se fecha tantas vezes. Hoje mesmo passei pelo cruzamento e lembrei dele, ele não se encontrava. Até cogitei a possibilidade de ter morrido, é tão comum entre mendigos. Nunca lhe dei moeda alguma, nada que eu pudesse lhe dar sanaria tanta miséria, me consolo. E sigo, os sinais abrem.
A moeda que lhe falta falta em mim por não poder lhe dar. Não poderia lhe dar moeda alguma do orçamento contado que sou. Mas sinais se abrem, eu sigo, até o próximo, de sinal em sinal eu sigo. Você fica, pobre diabo, na sua vida que só acontece quando os sinais se fecham.

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