quinta-feira, 31 de maio de 2012

Pele


Na minha pele há uma história escrita, incorrigível, irremediável, que grita, mesmo que interdita, e acolhe, e circunda, e contém uma explosão eminente. Como um ingrediente que salva, que mata, uma cápsula de proteção, um invólucro da resistência, um discurso de liberdade, na minha pele há alguma verdade. Para que a minha houvesse muitas peles sucumbiram. Na minha pele guardo todas em mim.
Sob minha pele uma espécie de bálsamo corre como rio sutil, em veios improváveis. O amálgama vital do que me antecede em mim se guarda, sob minha pele, para o que virá de mim. Aqui onde o tempo se dilui. Aqui onde o estigma morre na ponta da lança da existência. Sob a minha pele apreende-se a vida, em uma sabedoria curada. Uma verdade se esconde sob minha pele, uma explosão inevitável se guarda.
Através da minha pele luz se permeia pela escuridão. Trevas do passado, o trauma histórico, sentimento do ilegítimo acabam por se desmistificar. A noite busca amanhecer. O dia faz clarear. O sol é o responsável pela revelação da pele. Em mim se contém a energia fundamental.
Sobre minha pele a superfície da luta, a armadura do confronto, o próprio campo de batalha. E ainda o sentido, a textura registro, a cor verdade, o fim perceptível. Cicatrizes como uma linguagem em relevo. Marcas, dobras, sinais, como instruções de um mapa. Sobre minha pele levo o outro comigo, o convido, o repilo, o experiencio, o guardo. Em cada tom que varia os mundos coexistem. Na maciez, na flacidez, o tempo é meu. É na superfície da minha pele que ganho, que perco, que a felicidade é possível, que nasço e que morro.
Quem eu sinto quando me sinto, me percebo vivo, não sou só eu. Minha pele, como qualquer pele é em si um tesouro. Uma relíquia passada de mão em mão, imemoriais. Concebida, escondida, revelada, a minha pele não é só minha. A sua não será tampouco trajo exclusivo seu.
Nossas peles, superadas as palavras, e mesmo a luta, quando nada mais nos veste, quando os termos perdem seus sentidos, quando o benefício de nos exprimirmos um no outro supera a razão, é então que a pele explode. Fonte inesgotável de sentido. Polos que eternamente se atraem. Colisão original. Maravilhoso estar. Leitura táctil. Dispersão cósmica. Realocamento de ideias. Desmantelamento. Origem dos sonhos. Realidade inquestionável. Verdade.
Na minha pele quando na sua pele há uma verdade. A história se constrói nas nossas peles.

Pilar do mundo.

Ela começou um dia. Como um dia o sol também raiou, como todos os anos as estações mudam, como os rios correm na mesma direção, ela começou um dia. Um primeiro pé no chão, um após o outro, passos. Como as árvores imortais. Como o bater de asas imemoriais. Ela começou um dia, na origem do mundo, fez-se a luz, a vida, e ela. Como um processo incontrolável, como uma órbita eterna, como a incandescência de um estrela. Como o próprio soprar dos ventos, como formação das chuvas. É tudo tão natural na ditadura das horas. E a perseverança que não cansa. Uma fonte que nunca seca. É tudo tão banal no seio da existência. E o que é que ela não faria? E quando é que ela desanimou? Ela ficou na cama derrotada? Hoje ela não tomou seu chá? Algum dia ela não acariciou seus gatos? Ela nunca acordou fora de si. Sempre ela pairando sobre si mesma como um contrato. Irremediável, um pé após o outro, passos. E um passo após o outro tornam tudo tão comum na dilaceração do tempo. E quando foi que ela não terminou algo? Quando não esteve bem e preferiu o silêncio? Quando se aconchegou no escuro, na intimidade da solidão? E quando o sim ela disse não? Talvez ela nunca acabe. Talvez tudo pare quando ela finalmente se apagar. A roda só gira porque ela a move. Ela começou um dia, e nunca mais parou.

Poesia Ritual


Você chama de poesia,
Eu chamo de azia.
Nunca foi tão pouco sutil
Um pau numa buceta
E você chama de poesia.
.
É como assistir o animal planet:
Humanos!
É a celebração conforme do trauma familiar.
Você chama de poesia,
Eu chamo de azia,
E quero fugir pra Ásia.
.
Qualquer chama que ardeu se apagou.
Do contentamento descontente só sobrou a ojeriza.
No decorrer das suas palavras,
Do que você chama de poesia,
Camões ressuscitou e se matou.
.
Você é pior que Vinicius de Moraes:
Você é Vícios de Morais!
Você enterrou o amor romântico,
Você é o terror romântico!
Nunca foi tão pouco sutil
O desejo de adequar-se à paisagem.
E você chama de poesia.
.
E o que você sabe de poesia?
E o que se compila
E imprime
E verdadeiramente goza com as suas palavras?
.
Que boneca de pau você transou,
Que ovelha será tão desapercebida,
Pra comprar-lhe sua poesia ritual
Pra se inscrever sob sua rima medíocre?
O acasalamento heterossexual
Nunca foi tão pouco sutil
Mesmo que disfarçado
Sobre duas ou três palavras de intelectual.
Você mata o febril e genuíno do amor,
Fôrma distorcida e antiquada em pleno século XXI.
.
Não, nunca foi tão pouco sutil
Um pau numa buceta
E você chama de poesia.

Contemplação

A vida em você se manifesta de maneira tão habilidosa. Como se deslizasse através das horas você se chega e se vai e deixa pra trás qualquer rastro, poeira de estrela, qualquer aroma sutil de natureza viva. Há ao seu redor espécie de halo dourado, seus gestos emanam luz própria, de uma incandescência vigorosa, seu peito arfa, seus lábios são vivos em cores. Seus lábios, rosados, contornados em um chumbo fixo, seus lábios, grandes, enormes, precisos como deveriam ser. Quando se movem, seus lábios, sua voz suave surpreende quando ecoa da sua imponente figura, quando se movem seus lábios o mundo talvez pare durante os determinados segundos e só a você é que se escuta. A luz diminui, o palco da vida é seu. A vida em você se manifesta de maneira incesuradamente habilidosa. O sacríficio é valorizado, o pecado é bem visto. Há, claro, a cruz da existência, o peso de ser-se, mas em você o atos são dignos, irrepreensíveis. Eu não me canso de olhar, eu não poderia…

Os jornais.

Os jornais? Não os leio. Não me importam. Por que? Todas as notícias me dizem o mesmo: “O mundo continua”, e mal, sabemos nós. Mas e sobre a crise? E a inflação? Não me importa. Inflacionado está o custo da nossa humanidade, isso nenhum jornal publica. E o petróleo? Sei do petróleo todos os dias que abasteço o carro com a gasolina deles. Meu escapamento e meu bolso sabem mais sobre o petróleo que os jornais. E a dívida? A Classe C? Quanta ilusão. Deram ao homem o pão pisado, “que bom, pelo menos temos pão” dirão, “que bom, pelo menos eles tem pão” dirão vocês outros. Que pão é esse? Que fome ele mata? A minha continua mortal. Em algum estômago que alimento nenhum chega minha fome dói, por mim mesmo, por todos, por essa parcela de mundo confinada na minha própria existência besta. A Grécia está em chamas. Que bom. Ocuparam Wall Street. Já não era sem tempo. As notícias me chegam. Eu não leio os jornais. Não preciso. As notícias me chegam, são ruins, tem pernas longas. Não há nenhuma notícia boa nos jornais. As notícias ruins chegarão. “Acabaram-se os jornais por falta de leitores” talvez fosse uma matéria que eu adorasse ler. Publicada em lugar nenhum, ela seria ótima, matasse minha fome especial. Enquanto isso, não, não leio os jornais. O mundo está mal, eu sei. Tenho olhos pra enxergar e guardo o mundo inteiro em mim.

Justiça

Onde está ela? Essa moça bela. Mamas fartas, braços ágeis, onde está ela? Quem a escondeu? A mataram a bela justiça? Onde está ela? Eu me pergunto, meu amigo. O seu peso exato, sua medida perfeita por ser razoável, a justiça, pronta a alimentar as almas dos homens, guiá-los através dos dias, criando o senso de plenitude para vida, abrindo caminho para a felicidade. Só através dela, dessa moça bela, seguindo seus passos seria possível um mundo bom. Onde está ela? A enforcaram? Com a gravata dos advogados? Oh! A difamaram através das manchetes repetitivas dos jornais? Oh! A ludibriaram pelos caminhos obscuros da política? Ela se enterrou em Brasília? Abandonou o Brasil? Onde está ela? Sangrou o sensacionalismo da TV? Está presa em um congestionamento das necessidades? Perdeu o voo para cá? Não aportou. Aportará? Oh, Justiça. Não há resposta, só há a pergunta, meu amigo: Onde está ela? Porque ela, meu amigo, é uma pergunta eterna, “Onde está ela?” meu amigo, porque ela quando ameaçada sim se esconde, sempre para manter sua integridade, sempre quieta e escondida em nossos corações quando não há meios, meu amigo, “Onde está ela?”, é uma pergunta eterna, e a resposta sucedendo a pergunta todos os dias morre silenciada fundo nos nossos corações. 

Linda


Você é linda
Não há o que dizer
A força da vida
Nasceu em você
Quantos sois irão se por?
Quantas luas minguarão
o horizonte?
Você é linda,
os anos se vão
E a minha fé
Reza a sua oração
Quantos fardos levará?
Quantos açoites virão
pro fim?
E enterrada na masmorra
Quantas vidas você não viveu?
Eu te amo e mais que a mim eu sou seu.
Você é linda
E o céu se abrirá
Pra te receber
Pra te contemplar
Por ter sido tão esquecida
Pela sua bondade infinita
Mesmo que céu eu faça com as mãos
E enterrada na masmorra
Quantas vidas você não viveu?
Eu te amo, mais que a mim eu sou eu.
Na escuridão da senzala
Quantos sonhos você não sonhou?
No seu sacrifício silente.
Com a tristeza complacente.
Eu te amo como nunca se amou
antes.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Os insetos: procissão


Escadaria abaixo como se num formigueiro adentrasse. Pago pois paga-se, e vamos todos apertados. Velozes, rápido, 100km em linha reta ou em passos. Velozes, rápido, de modo que uns aos outros nos atropelássemos. A TV até no metrô me convence da utilidade da vida: Meu bairro valorizou, minha existência ficou mais digna. Em uma linha disforme seguimos desacordados, como em transe profundo, em ritmo programado. Como se a qualquer momento um dedo divino massacrasse inteira a procissão, e o cheiro forte que exala os corpos dos humanos, operárias. Alguns correriam desnorteados em busca do refúgio que não tem. O dedo divino que mata será da mão de quem? E a TV do metrô me convence que tão feliz eu nunca fui. O frio do vagão subterrâneo me acalenta o interior. Volto a subir as escada rumo ao mundo acima, que me espera. Já fora fumo um cigarro, já esquecido de mim, vou.

O pássaro o céu


O que há que há que pia como pássaro engaiolado sob os seus modos contidos? E sobre o pássaro mesmo que enclausurado ele voa? E o que é que é que o seu corpo me entoa nesse canto mudo, som não verbal, tudo o que o céu sabe do pássaro é verdade mesmo que não saiba o pássaro?
Eu sou eu sou o céu para onde você poderia voar ou sou eu sou o céu será sua derradeira gaiola? A liberdade será gratificante ou aterradora? Pássaro preso mesmo que não voa ainda é pássaro? Asa do pássaro que nunca conheceu o céu é asa?
O que há que há no céu que não há nada e pássaro nenhum voa existirá céu mesmo que inabitado céu existirá? Será o céu o fim do pássaro ou pássaro se acostuma ao céu gradeado e assim contido o pássaro ainda se lembrará do céu?
Eu sou eu se seu o céu será que promessa de vida será o céu se seu? Tão amplo e sem beiras todo em ar e sem memórias. Que promessa de vida sou eu o céu será se em si céu não é vida? Sem pássaro céu não é nada.
E o pássaro sem céu será pássaro será vida? Céu sem pássaro é liberdade esquecida. E para o pássaro o que o conforto da gaiola significa? Terá o pássaro conscientemente se retido? E escolhido a vida do seu carcereiro? Pássaro engaiolado é o homem refletido.
Se seu eu seria o céu, seu limite, o infinito. Se só, inexisto céu.

O homem da sonda


Em um cruzamento desimportante o vi pedindo. Quando o semáforo fechou-se em vermelho fechou-se a minha passagem. Eu, calejado que já estou com os pedintes nas ruas da cidade, de primeiro não lhe dei atenção alguma. Era qualquer outro, quase que nenhum.
Eu era o terceiro na fila de carros, na minha faixa localizado. Pronto para seguir em frente assim que o verde me indicasse, e o desvalido entre as faixas apelava para os vidros fechados, para a plateia que não se comovia, todos nós interessados em seguir, deixar-lhe logo pra trás. Ele pedia.
Só quando intimidado pelo tom ameaçador de um mendigo ou comovido por nenhum motivo especial é que eu vasculho meu carro e minha carteira em busca das moedas. Contribuo para a próxima dose de pinga, próxima pedra de crack, e até mesmo um pão.
São tantos os pedintes aglomerados pelo centro da cidade, sob viadutos, dormindo nas calçadas, abordando pessoas na rua, tantos, que se eu me comovesse com cada um que me passa ao longo do dia sofreria um significativo rombo no meu contado orçamento.
Foi só então, depois desses pensamentos comuns, que o vi inteiro, prostrado, em frente à janela do meu carro, eu o vi. De resto ele era como um mendigo qualquer, maltrapilho, imundo, com cor de sarjeta. E mesmo que eu nunca tenha aberto o vidro senti seu cheiro horrível, como carne apodrecendo, ele era quase como todos os outros.
Uma das mãos, como tantas, se erguia e torcia-se em súplica. Na outra, o pobre homem segurava uma sonda urinária que o diferenciava dos outros. Um terrível aparelho, uma bolsa plástica hospitalar, com um punhado do líquido amarelado. Por um cano ele segurava sua desgraça à vista e o outro duto sumia por entre suas vestes sujas. Uma das mãos expunha a miséria absoluta, a outra me implorava a minha humanidade.
Fechei os olhos sem conseguir lhe responder nada, sem ao menos abrir o vidro e ter qualquer pedido verbalizado. O sinal se abriu, confuso e automático engatei a primeira, acelerei, deixei o homem pra trás. Tremia, minha visão estava embaralhava tamanho desconcerto, eu conhecia bem o caminho, o faço todos os dias, dentro de pouco tempo e com algum esforço cheguei a salvo em casa.
Na noite seguinte, passando pelo mesmo local, o homem não havia saído da minha cabeça. Dessa vez eu estava preparado, estava decidido a lhe dar moedas que conscientemente acumulei ao longo do dia. Amontoadas no fundo da minha carteira elas me incomodam, não custava.
O homem não estava lá, fiquei decepcionado. E também sentia certo alívio por não encarar novamente a miséria exposta de maneira tão feroz. O sinal novamente se abriu e eu segui a salvo para casa.
Dias se passaram e o homem não saiu da minha cabeça. Sempre me preparando para a abordagem, mas ele não comparecia. Alguns dias mais e eu achei provável até que tivesse morrido, é comum entre mendigos, especialmente em se tratando de um em situação tão crítica. O sinal abriu, eu seguia.
Por algum tempo fui mais generoso com os pedintes dos semáforos, dei moedas, troquei palavras avulsas. Mais dias se passaram, esgotaram-se as moedas, deixei de me importar, são tantos afinal, o sinal abriu, eu segui. Me esqueci do homem no mendigo, eu segui.
Mas o sinal fechou.
Um dia enquanto eu novamente me encontrava distraído o sinal se fechou, eu parei. Não estava preparado, meu vidro se encontrava aberto, me encontrava conforme na minha faixa, ouvia música alta no carro, absorto em mim mesmo que sou não percebi quando o pobre diabo se aproximou, sua sonda na mão, sua miséria, sua súplica. O sinal fechou.
Odor nenhum se exalava, ele era inodoro. O líquido do plástico era diluído, incolor. Ele não verbalizou coisa alguma, mal me olhava, e era a própria vaguidão que me atravessava, seu vazio que era meu. Eu tremia, as moedas dessa vez as tinha dado todas, minha cabeça no instinto balançou em movimento de negação. O pobre homem se foi, para além da minha vista, para outros carros, outras pessoas. O sinal abriu, nós seguimos todos. Sem resistência alguma ele ficou.
Eu considerei alterar meu trajeto, talvez até o tenha feito por alguns dias enquanto me era viva a lembrança do homem na sonda, de tamanha miséria exposta, mas o cruzamento em questão é o caminho mais curto que faço para casa, espontaneamente voltei ao meu trajeto habitual.
O vi de novo, o homem. Dessa vez ele se aglomerava entre os mendigos, eram três ou quatro ao todo. E assim, diluído entre o seus, ele se tornava menos assustador, mais banal. O requinte de sua tragédia se perdia, eu estava novamente calejado. O sinal se abriu, não o vejo mais, não é mais homem, é mendigo, se aglomerou aos outros. Sua sonda se soma às tragédias cotidianas. O sinal abriu, eu segui.
O sinal se abre e se fecha tantas vezes. Hoje mesmo passei pelo cruzamento e lembrei dele, ele não se encontrava. Até cogitei a possibilidade de ter morrido, é tão comum entre mendigos. Nunca lhe dei moeda alguma, nada que eu pudesse lhe dar sanaria tanta miséria, me consolo. E sigo, os sinais abrem.
A moeda que lhe falta falta em mim por não poder lhe dar. Não poderia lhe dar moeda alguma do orçamento contado que sou. Mas sinais se abrem, eu sigo, até o próximo, de sinal em sinal eu sigo. Você fica, pobre diabo, na sua vida que só acontece quando os sinais se fecham.

Não há o que ver

O ano passou e mesmo que alguém tenha se matado alguém nasce quando a carne subiu com o aluguel que aumentou e não há o que ver depois que a madrugada caiu alguns voltaram a sorrir quando eu bebi pois alguém morrerá mas não há o que ver do dólar que subiu da crise que aumentou não há o que ver porque eu voltei a sorrir logo quando o ano nasceu e o aluguel mudou e já não se há o que ver depois que o céu desabou fazendo o cachorro latir pela gata que morreu não há o que ver no que alguém se amou já que um foi assaltado porque alguém viajou o emprego cresceu ainda que alguém tenha se matado já não há o que ver porque o sonho morreu e Deus se converteu e o seu tempo ruiu logo não há o que ver da pobreza que aumentou mesmo com a renda que se distribuiu porque a inflação nos matou e não há o que ver e já não há nada para ver depois que alguém foi embora alguém logo chegou atrasado sendo que o trânsito só piora já não há o que ver.

Sal


Que me contrai artérias e vias. Me mata e me salva nos semáforos ocasionais. Como preso em permanente congestionamento meu amigo me diria nada se extrai sobre o congestionamento ele diria nada se narra. O que dizer do que eu extraio dos semáforos ocasionais? Do vermelho reluzente perpétuo barrando o fluir do sentido o movimento da vida o que se extrai? Nada se extrai ele diria. Nada se extrai eu concordo eu diria. Nada se extrai tudo se retrai quando se extrai esse. Sal. E se contrai o duto responsável pela passagem o sentido o movimento da vida. Que salva e que aniquila eu diria. E como se depura e qual seria a medida? Não se responde. Desse. Sal. Que se colhe e se doa e se extrai e que tanto contrai e retrai-nos a todos. Ninguém sabe. Ninguém nunca respondeu. O que se perde quando se doa e o que se ganha? E o que se ganha quando se perde e o que se doa? E do que dói quando se doa e eventualmente se perde algo se ganha? E o que se ganha quando se ganha e alguém se ganha quando ganhou? Quando se ganha? Quem se doou? Quem se perde todos sabem todos conhecem alguém cujo. Sal. Se esgotou. Mas ganhar significa encher-se com o. Sal da vida? Eu não sei. E você na minha frente, o outro. Você que todos os dias eu me cruzo para te alcançar. Você que também vive em mim e do meu chão eu só te colho. E na água do meu do seu do nosso mar depuro a nossa relação. É meu é seu é nosso esse mar? E desse. Sal. Que dispomos faltará em algum lugar? E quando nos contraímos demais e quando eventualmente nos relaxamos? Falo por mim quando recolho-me todo em. Sal. Falo por mim quando me contraio e me relaxo. O tudo. E não seria a tarefa mais solitária do mundo deixar-se evaporar para alcançar o estado concentrado do ser? E não será igualmente solitário hidratar-se e deixar-se fluir para o estado diluído do si? E o mundo, o que colhe do. Sal? O que verdadeiramente se impõe quando me impõe o mundo esse semáforo pontual? O que eu perco o que eu ganho o que é o. Sal? E o que você me impõe o que você verdadeiramente me impõe quando me impõe seu semáforo pessoal? E eu paro. E eu sinto tão dilaceradamente o excesso e a falta do. Sal. Que se igualam. Da falta do. Sal. Se narra. Do excesso do. Sal. Também se narra. Mas e do próprio. Sal. O que se disse? Qual o sal desse romance? Já perguntaram. E debruçam-se sobre o sal de cada romance muitos ao longo da história do tempo. Sobre a falta sobre o excesso trataram. Mas é do. Sal da vida. Que trato. Desse que se ganha e se perde no trato. Que nunca se ganha nunca se perde eu diria. Mas que somos fatalmente atingidos pela concentração ao redor. Eu diria? Do Sal nada se sabe mesmo que se saiba o tempo todo. Eu diria. Eu diria? Do Sal se vive e se morre e um dia cessa o movimento vital. Do Sal quem não dispõe e quem não recebe em vida já cessou. Do Sal pessoas verdadeiramente graciosas são aquelas que o manipulam se o manipulam de modo a não deixar-se notar o próprio Sal. Eu noto. Do Sal não sei meu Sal. E depois de enxergá-lo é possível esquecê-lo? E é possível passar pela vida sem sabê-lo e será melhor? E quando falta no outro é saudável oferecer-lhe o seu e do contrário aceitar o do outro? Do Sal eu não sei quando sei. Quando esqueço me lembro que quando lembro me esqueço. Do Sal nada se narra mesmo que ele seja tudo. E durante as vias contraídas. Durante os semáforos casuais pontuais pessoais. Nas minhas veias. No que vem no que vai no que volta sempre há falta e excesso de Sal. E o Sal cessa. E o Sal resiste. Se perpetua. Não importa. Do nosso Sal perdura o sal. O sal se narra.